Tomé: o apóstolo cabeça dura

Saiba um pouco mais sobre o jovem pescador que era impulsivo e teimoso, mas muito afeiçoado ao seu Mestre

Tomé

M
eliapor ou São Tomé de Meliapor, sudeste da Índia, 68 d.C. Um grupo de mulheres chora a morte de um homem, executado pelos guardas do rei. Era um estrangeiro, dizem, um que chegou da Palestina alguns anos antes em um navio comercial. Andava fazendo discursos estranhos, falava sempre de seu Mestre e de um Deus bondoso, mas aquelas palavras  não agradavam ao rei Mazdai.
As pessoas se aproximam aos poucos, curiosas. Muitos o reconhecem: “Tomé – gritam – Tomé está morto”. A voz se espalha. Chega também a mulher do rei, a linda Tertia. Mas por que ela também está aqui, em meio às pessoas comuns, a chorar a morte de um simples condenado? O que está pensando?

Cabeça dura. Foi sempre um cabeça dura. Se tivesse me escutado, hoje estaria ainda vivo e nós não estaríamos aqui chorando, enfaixando seu corpo dilacerado pelas lanças daqueles assassinos. Se tivesse seguido meu conselho,  poderia ter se salvado e escapado da ira de meu marido, o rei Mazdai. Mas não! Decidiu retornar ao cárcere, recusou a ajuda e a possibilidade de fuga que lhe havia oferecido. E agora, ei-lo ali, o apóstolo Tomé, orgulhoso e cabeça dura até o fim. Sim, cabeça dura como quando se recusou a acreditar em seus melhores amigos, Pedro e os outros, que diziam a ele terem visto o Mestre depois de sua morte. Assim mesmo: ‘Se eu não vir em suas mãos a marca dos cravos, se não puser meu dedo na marca dos cravos, e se não puser minha mão em seu lado, não crerei’.
‘Não seja incrédulo, Tomé!’, lhe havia dito o Mestre. Ele ficou realmente mal. Então, daquele momento em diante, as palavras de Jesus jamais saíram de sua mente. E as repetia também para nós, todas as vezes que o encontrávamos em sua gruta sob a colina, para ouvi-lo falar da vida de seu Mestre. Concluía sempre com aquela frase: ‘Não sejam incrédulos!’. Depois acrescentava: ‘Felizes aqueles que, sem terem visto, acreditam’. Naquele momento, dirigia-se certamente a nós, que estávamos diante dele e que não tínhamos conhecido a pessoa do Mestre… Mesmo assim, todas as vezes que pronunciava aquela frase, havia uma sombra de remorso em sua voz.
Não deveria ter ido agora, deixando-nos assim: precisamos ainda de seus ensinamentos. Eu mesma tinha tantas coisas para lhe perguntar…

grandes encontros São ToméAlguém que fala como nós

Na realidade, antes que Tomé chegasse aqui na Índia, já havíamos ouvido falar em Jesus e suas obras. Era um dos discursos preferidos dos comerciantes. Mas na corte jamais prestamos atenção naquilo que contam as pessoas do mar. Muitos dos meus súditos, pelo contrário, imediatamente ficaram fascinados e se distanciavam cada vez mais de nossos deuses, das nossas antigas tradições. E isto sempre deu um enorme aborrecimento ao meu marido, o rei Mazdai, porque não conseguia mais exercitar sua influência sobre eles.

Depois de algum tempo, eu também conheci Tomé

A primeira vez que ouvi falar sobre Tomé foi através de Mygdonia, mulher de um parente nosso. Ela ia todos os dias escutá-lo. Eram mensagens de paz, amor e justiça. Aos poucos, Mygdonia se deixou convencer a crer em um Deus único e imensamente bom, que ama a todos os homens do mesmo modo, como seus filhos. ‘Que discursos estranhos!’, pensei comigo. Assim, um dia, decidi acompanhar Mygdonia. Mas somente porque estava preocupada com suas mudanças e queria entender o que tinha acontecido. Aproximei-me dele e lhe perguntei o que o havia trazido ao nosso país, tão distante de sua terra de origem.

Lembro ainda que a primeira coisa que me tocou foi algo muito estranho: se via claramente que aquele homem era um estrangeiro e que vivia na Índia há pouco tempo e, mesmo assim, entendia e falava perfeitamente nossa língua! Depois, de repente, parei de maravilhar-me com seu modo de falar e me concentrei somente naquilo que estava dizendo. Falava de seu Mestre – ‘o Filho de Deus’, o chamava – e, enquanto falava, suas palavras suscitavam uma estranha sensação em mim…

Começava, aos poucos, a me sentir mais próxima a Mygdonia e às outras pessoas ali presentes. Nunca aconteceu comigo antes:
sou a esposa do rei e sempre procurei evitar contatos muito próximos com aqueles que considerava meus súditos e inferiores. Naquele momento, pelo contrário, a presença deles me confortava, me apoiava. E lembro que, imitando Tomé, virei-me para eles chamando-os de ‘irmãos’.

Um fato extraordinário

Naquele dia retornei para casa à pé, quase sem me dar conta, pois estava imersa em meus novos pensamentos. As ásperas reprovações de meu marido trouxeram-me de volta à dura realidade: andar a pé pela cidade não era certamente um gesto digno do meu posto!
Contudo, fui outras vezes ouvir Tomé, até que um dia soube que o rei havia mandado prendê-lo. Corri até a prisão, em tempo de assistir a um fato extraordinário: os carcereiros tinham recebido ordens para torturá-lo, fazendo-o caminhar sobre chapas incandescentes de ferro. De repente, da terra começaram a jorrar jatos d’água tão abundantes que o metal se resfriou e os guardas fugiram aterrorizados.
Mas, nem este e nem outros episódios estranhos, acontecidos na presença de Tomé, bastaram para convencer meu marido de sua sinceridade, nem lhe demonstrar que se tratava de um homem extraordinário. Antes, o fato de que eu e Mygdonia fôssemos frequentemente visitá-lo na prisão deixou o rei ainda mais furioso. Assim, condenou-o à morte e ordenou a seus quatro soldados mais fiéis que o assassinassem.

Por sorte, pelo menos acreditávamos assim, nesta noite eu e Mygdonia e os outros conseguimos corromper os guardas e levar Tomé para casa de uma de nós. Pedimos a ele o batismo. Ele nos concedeu, mas depois não quis mais nos dar ouvidos e voltou ao cárcere. Cabeça dura! Aqui em Meliapor jamais o esquecerão. Seremos nós agora a salvaguardar suas palavras e a mensagem que nos transmitiu. Faremos de tudo para que neste lugar seja construída uma igreja que possa acolher seu corpo e nossas orações…

Prometemos isso a você, Tomé!

BIOGRAFIA

As poucas notícias sobre a vida e a personalidade de Tomé encontram-se somente no Evangelho. A successiva história do apóstolo nos foi transmitida por um “Evangelho apócrifo”, assim chamado por não ser reconhecido pela Igreja. Ainda hoje, a tradição diz que Tomé chegou à Índia no ano 52 d.C., onde introduziu o cristianismo. Desembrarcado em Malabar, região costeira no sudoeste da Índia, Tomé começou a pregar a religião de Cristo, movendo-se para várias regiões da Índia Meridional. Caiu em desgraça junto a um poderoso rei local, e pro este foi condenado à morte por golpes de lança. Os seguidores da nova fé foram chamados “cristãos de São Tomé”. Hoje estão presentes em Kerala, na Índia Meridional.

Publicado no Jornal Missão Jovem de Jan/Fev de 2018

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