Um missionário entre os mais simples na Índia

Missionário Enrico Meregalli com comunidade indiana

O irmão leigo Enrico Meregalli, missionário do PIME, é a alma da Escola Técnica de Eluru, na Índia. Lá ele entalha a madeira e o coração de seus alunos. Inicia cada uma de suas jornadas de joelhos.

 

E
nrico Meregalli (irmão “Barba”), nascido em 1948, missionário leigo do PIME. Vive há mais de 40 anos em Eluru, no estado indiano de Andhra Pradesh. Todos o conhecem por sua vasta barba, por suas preciosas mãos, pelo trabalho ensinado a tantos garotos da escola técnica da qual é a alma, mas, sobretudo pelo grande coração que encontrou um tesouro escondido em um recanto remoto da Índia.

Na escola fundada pelo PIME, 150 jovens entre 15 e 18 anos estudam mecânica, circuitos elétricos, solda e outras atividades técnicas. São dez professores e os melhores laboratórios da região. Os alunos vêm de longínquos vilarejos. A procura de vagas é sempre maior que a oferta. “Uma vez obtido o diploma, os rapazes são muito procurados – explica Meregalli –, principalmente os mecânicos. Habilitados na escola como motoristas, muitos saem para trabalhar na Road Transport Corporation, uma empresa de ônibus. Outros partem para os países do Golfo Pérsico, onde muitos dos nossos jovens trabalham.”

Mas o verdadeiro reino do irmão Enrico é ‘extraterritorial’: a sua carpintaria que, apesar de não fazer parte oficial da escola técnica, sempre atrai muitos rapazes que querem aprender um ofício.

“Fazemos entalhes e esculturas, trabalhando o tek e o nim, duas madeiras locais muito boas e resistentes, que nem mesmo as formigas vermelhas conseguem comer – conta Irmão Enrico –. Nossa carpintaria é famosa por fazermos entalhes mui precisos, perfeitos. Igrejas, comunidades religiosas e famílias nos pedem portas e janelas de qualidade. Sabem que o nosso trabalho é límpido, que a madeira é boa, e que não são enganados.” Crucifixos, estátuas de santos, balaústres, portas, janelas com entalhes esplendidos saem das mãos de “Barba”, desde o dia 1º de dezembro de 1974, quando chegou a Eluru, vindo de Cinisello Balsamo, na Itália.

Na entrevista a seguir, ele conta um pouco sobre sua trajetória.

O que o fez partir como missionário leigo do PIME?

Em minha terra, eu participava de um grupo missionário e trabalhava em uma indústria de bombas centrífugas. Mas sentia que aquilo era muito pouco. Um dia, em resposta a Deus, falei como o profeta Jeremias: ‘Seduziste-me, Senhor. Tu me chamaste e não fui eu, certamente’. Entendi que deveria levar a todos minha alegria de ter conhecido Jesus. Quando ingressei no PIME, em 1968, na casa de Busto Arsizio estava o padre Severino Crimella, que partiria para o Brasil. Eu o admirava e também queria ir junto. Ao invés disso, fui destinado a Eluru, para ajudar o irmão Carlo Bertoli, que já estava idoso, na escola profissional fundada por ele. Cheguei sem nada entender da língua local, o Telugu. Assim, trabalhava na oficina durante o dia e, à noite, estudava a língua com um professor. Foi difícil, demorei anos para aprendê-la. Com o tempo, os rapazes começaram a sentir que eu, estrangeiro, falava como eles e ficaram contentes.

Como é a escola?

Até 1981, o local não emitia diplomas reconhecidos pelo Estado. A validação vinha de Nova Délhi. Desde aquele ano, nossos diplomas são reconhecidos, graças ao esforço do irmão Francisco Sartori, que havia chegado em 1966. Ele ainda está na administração da missão. O reconhecimento oficial dos diplomas pelo Estado foi um passo à frente para os rapazes.

Quando e por que você assumiu a cidadania indiana?

Isto aconteceu há cinco anos, devido à situação atual da Índia. Os nacionalistas xenofóbicos hindus impõem sempre mais restrições à renovação de vistos aos missionários estrangeiros.

Mas o seu tesouro, aquele que você doa de mãos cheias, onde está?

Ingressei no PIME em 1968. Muitos, entre os que entraram comigo naqueles anos, até mesmo melhores que eu, desistiram… Eu, porém, tive a sorte de permanecer um jovem de 20 anos no espírito, graças somente à oração. Diziam muito bem nossos velhos: ‘abrace o alvo…’. E tinham razão.

Você reza enquanto trabalha?

Não! É preciso cuidar dos rapazes. Para rezar, levanto cedo e depois, todas as noites, tenho um encontro marcado com a Adoração Eucarística.

Que lição foi possível tirar desses 43 anos na Índia?

Esse país me deu a alegria de encontrar tantas pessoas simples, pobres, mas felizes pelo pouco que possuem. Aqui ninguém te trata com arrogância; és acolhido por todos. E a amizade permanece. Não só quem encomenda um trabalho, mas também a Índia pobre, dos leprosos, das crianças para quem providencio uniformes escolares, dos deficientes a quem presenteio com triciclos que faço com material descartável. Vejo também os rapazes que passam pela oficina. Muitos aprendem um ofício e vão embora. Mas todos vêm me visitar e são sempre bem recebidos. Aqui, um jovem sofreu um acidente e ficou inválido. Apoiava-se em um bastão e pedia esmolas. Em vez de esmola, eu disse a ele que lhe daria uma oportunidade. Assim, ele descobriu a arte do entalhe. Agora, faz belos trabalhos e, sobretudo, sente-se um novo homem.

Desde que chegou, como você viu o país mudar?

A Índia avançou muito do ponto de vista econômico, mas não do ponto de vista espiritual e sanitário. Ainda existem endemias, como dengue e tifo. Por sorte, a nossa escola tem um poço muito bom. Ele fornece água potável a 200 famílias. Novas impressões da Bíblia são vetadas e, por anos, ela não existia em Telugu. Assim mesmo consegui algumas, que distribuí… Dizem que é proselitismo. Quando cheguei, plantei cem pés de coco que, agora, dão frutos. Não para mim, mas para os pobres. Oriento-os a fazer a mesma coisa para se sustentarem. Tem quem o faça e hoje vive disso. Do jeito simples de um missionário leigo, faço isso há mais de 40 anos: tempo investido na formação dos rapazes e no trabalho manual na oficina.

Sempre pronto a ajudar

Veja no vídeo abaixo a cadeira de rodas improvisada que foi projetada na oficina na qual Enrico Meregalli é professor. Equipamento facilitou a vida de uma mãe que sofre de paralisia em decorrência de uma doença chamada poliomelite. Assim como ela, vários deficientes físicos podem contar com a ajuda do missionário, que está sempre pronto a inventar novos jeitos de ajudar a quem precisa.

Publicado na revista Mundo e Missão de abril de 2018 – Ed. 221
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