Um passo a mais

Apresentamos um dos novos padres do PIME. Conheça a trajetória de Mateus Jensen Didonet, natural de Brasília (DF)

N
ão sei bem como descrever a minha caminhada. Seguramente não uma reta, mas algo com várias voltas, altos e baixos, como o voo de uma pipa no céu. Aliás, quando era criança nunca soltei pipa. Estranhamente em Brasília, cidade de amplos horizontes, faltava espaço. No bairro onde morava, cada pessoa tinha uma casa, cada casa tinha um jardim, cada jardim uma criança, todas separadas por um muro. Faltava espaço para correr e oportunidade para se encontrar. Desse bairro, bonito e seguro, em um dia de vento se viam ao horizonte centenas de pipas, e imaginava na outra ponta dos fios crianças q ue corriam livres por ruas sem asfalto, crianças tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Dessa época ficou em mim a sensação que os fios do Evangelho conduzem até aquela vida simples, na periferia do mundo.
O modo de agir de Jesus surpreendia principalmente porque, para além de categorias étnicas, sociais ou morais, ele via em cada pessoa um irmão, um filho amado de Deus. “Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, derrubando o muro da separação” (Ef 2,14). A busca por conhecê-lo realmente foi me encantando. Entendi que a Sua luz não se via diretamente, mas refletida nos olhos de outras pessoas, principalmente naquele brilho no olhar de quem ainda sonha, de quem tem esperança, de quem é feliz, mesmo numa vida difícil.
Aos 19 anos entendi que essa busca por Deus era um desejo forte demais para dividir com outras preocupações. Relutei, tentei fugir, mas ao final acabei admitindo, primeiro para mim mesmo, que essa era a minha vocação. Pensei então em partir logo, porque deixar tudo de uma vez parecia um modo de sofrer menos: abandonar ali mesmo o curso de Física na Universidade de Brasília (UnB), os amigos, a família. Mas me aconselharam a terminar o curso. Seriam três anos para amadurecer a decisão. Nesse tempo, pude soltar pipa pela primeira vez, quando participei do Sonhar Acordado, uma ONG que, em várias cidades do país, procura aproximar voluntários a crianças carentes. Algumas dessas crianças tentaram me introduzir na arte da pipa, sem muito sucesso.
Os anos de espera não foram fáceis. Um dos motivos é que eu não tinha claro ainda que tipo de vocação seguir. Pensando nas situações de pobreza, fiz acompanhamento com os franciscanos, estive na Índia e entrei na Toca de Assis, até que finalmente conheci o PIME. Então descobri que tantas coisas que trazia dentro de mim encontrariam na missão a sua realização.
Por lá, quem sabe, poderei finalmente aprender a soltar pipa… como um amigo missionário que, não conseguindo evitar que a sua pipa ficasse longe dos galhos, confiou-a às mãos experientes de um menino do orfanato que ele dirige em Bangladesh. Ele, pe. Fabrizio Calegari, registrou: “Assim também somos nós, padres, suspensos entre céu e terra. A nossa humanidade é frágil como um fio, a graça de Deus nos salva como o vento, e os pequeninos estão sempre a nos ensinar”.

Publicado no Jornal Missão Jovem de agosto de 2018

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