Uma arte que desperta veneração

Bodas de Caná | Marko Ivan Rubnik

Os mosaicos saídos das mãos do artista-teólogo Padre Marko Ivan Rubnik decoram igrejas no mundo inteiro

 

N
uma cultura objetivada, conceitual e científica, a arte se transforma no ‘espaço’ do protesto contra tudo o que é suprimido da pessoa humana. Sobretudo o mundo dos sentimentos e da liberdade. O artista, por isso, expressa a si mesmo como único, inconfundível, usando uma linguagem subjetiva. Já a linguagem litúrgica, ao longo dos séculos, purificou-se daquilo que era psicológico demais, para chegar a uma essencialidade simbólica que, de um lado, sabe se alimentar da objetividade da Revelação de Cristo e, de outro, pode ser reconhecida a qualquer momento da história pelo povo cristão.

Padre Marko Ivan Rubnik é um jesuíta esloveno de Zadlog. Os mosaicos saídos das mãos deste artista-teólogo decoram igrejas no mundo inteiro. Abaixo, algumas de suas ideias transcritas de uma entrevista concedida a Paolo Mattei e publicada na revista 30 Dias:

“A arte dos cristãos sempre foi uma ‘arte da presença’. Portanto, uma linguagem essencializada, sem detalhes que levem à distração, na qual tudo é assumido no mistério que se comunica. Uma obra de arte pode suscitar a surpresa e a admiração, mas a arte sacra deve suscitar veneração.  A veneração que o simples fiel expressa com o sinal-da-cruz, a genuflexão, a oração: porque a presença de Deus está ali. Não é suficiente que a pessoa diga: maravilhoso! É preciso que haja uma vida lá dentro, que torne possível perceber o Mistério presente.”

Cristo Senhor Universal | Marko Ivan Rubnik

“João Paulo II, falando da arte, disse que ela ‘é conhecimento traduzido em linhas, imagens e sons, símbolos que o conceito sabe reconhecer como projeções da vida sobre o arcano, para além dos limites que o próprio conceito não consegue ultrapassar: aberturas, portanto, ao profundo, ao outro, ao inexprimível da existência, caminhos que mantêm livre o homem em seu rumo para o mistério e que traduzem seu anseio, pois não possui outras palavras com as quais possa se expressar. A arte, portanto, é religiosa, pois leva o homem a ter consciência da inquietude presente no fundo de seu ser, inquietude que nem a ciência, com a formalidade objetiva das leis, nem a técnica, com a programação que preserva do risco do erro, jamais conseguirão satisfazer. Paulo VI, ao descrever as prerrogativas do artista, usou o termo alemão Einfühlung, explicando assim seu significado: ‘A sensibilidade, ou seja, a capacidade de perceber, mediante o sentimento, aquilo que, por meio do pensamento, não conseguiria entender e exprimir’.”

Natividade | Marko Ivan Rubnik

“Ao longo da nossa história, a igreja-edifício sempre teve como ponto de referência a Igreja e os mistérios por ela celebrados. Se hoje quase ninguém é capaz de expressar as características claras dessa identidade, isso provavelmente significa que no momento nos perdemos.

É preciso que estejamos atentos às novidades da cultura – na qual nós também, afinal, estamos mergulhados –, sem que isso se traduza numa submissão mecânica às modas. A humilde fidelidade à Tradição permite essa abertura ao mundo.

De fato, o que está em jogo é a vida. Fomos gerados num parto que é o batismo, por uma mãe que é a Igreja. A Igreja é a imagem da comunhão trinitária, na qual nós, por meio das palavras sacramentais, da água, do evento sacramental do batismo, fomos inseridos. Portanto, a vida que recebemos é uma comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Isso significa que a vida que recebemos – sua constituição, seu ‘estilo’ – é comunhão e diálogo.

Fuga para o Egito | Marko Ivan Rubnik

A vida se realiza, portanto, na comunhão com Deus – oração –, com os outros – caridade – e com a terra – transfiguração do mundo. Uma comunhão tridimensional, organicamente inseparável. A igreja que construímos não pode deixar de levar a que se vislumbre essa vida. Sendo que a vida que recebemos pertence a Cristo, e que a vivemos em Cristo, que no mistério pascal realizou o ponto mais alto da Revelação, a presença dos cristãos no mundo não pode se realizar fora dessa vida”.

Publicado na revista Mundo e Missão de dezembro/2017 – Ed. 218

 

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