Você sabe o que está na raiz da palavra educação?

Uma delas desconstrói (e contraria) ideias e hábitos amplamente difundidos e vividos por pais e professores

por Jorge Cotovio

 

N
unca estudei latim ou grego e na minha juventude poria em último lugar uma opção pelo curso de “clássicas”. Destarte, quem diria que, passado uns anos, eu me apaixonaria pelas etimologias? É verdade, ganhei gosto em ir às origens, em perscrutar o genuíno significado das coisas. Digo tudo isto a propósito de «educar» – uma palavra tão sublime que até exige duas raízes: educere e educare. Confesso que me fascinei pela primeira – educere. O que ela significa – “tirar de dentro”, “fazer sair”, “extrair” – desconstrói (e contraria) ideias e hábitos amplamente difundidos e vividos seja por pais, seja por professores.

Olhemos a natureza (que tanto nos ensina!). Olhemos a semente que o jardineiro com muito cuidado põe na terra. Ele não a ensina a crescer, mas cria condições para tal: fertiliza a terra, proporciona-lhe luz, rega, retira ervas daninhas, poda, “anda à volta, alimenta”(educare) para acompanhar bem o crescimento. Mas o autor do crescimento é a própria semente, pois ela encerra tudo o que necessita.

Neste quadro – infelizmente desconhecido para a maioria das pessoas – cabe ao educador estar atento e fazer tudo para que desabrochem e se desenvolvam equilibradamente as (muitas) capacidades (e dimensões) que os nossos filhos e os nossos alunos encarnam desde o nascimento. Numa simbiose perfeita, educere e educare completam-se: se um “faz sair de dentro”, o outro convoca-nos para andarmos à volta, cuidarmos, mas sem atrofiar, sem abafar, sem condicionar.

Neste quadro, cabe ao educador criar “ambientes de crescimento” alimentados pelo amor, pelo estímulo, pelo ânimo, pela confiança, pela segurança emocional, que levem o educando a sentir uma enorme satisfação por fazer as coisas por si próprio. Pelo meio ficam as brincadeiras (sobretudo no caso dos filhos), os contextos de aprendizagem que fazem apelo à autonomia, à responsabilidade, à criatividade, ao espírito crítico, à interação entre pares. Mas pelo meio terão de ficar – igualmente – a organização, a disciplina, as regras, as exigências.

Olhemos agora com alguma atenção para a realidade. Geralmente, fazemos precisamente o contrário… A maioria dos pais, por amor, moldam-nos à maneira deles, super protegem, evitam as dificuldades e fomentam o facilitismo, dão-lhes sempre razão (desautorizando a escola), estudam com eles (e até por eles), dão-lhes comida triturada, não toleram o erro e não os deixam assumir riscos.

Por outro lado, a maioria dos professores, por mais pedagogias ou decretos-lei que fomentem a “verdadeira educação”, teimam em transmitir/ reproduzir conhecimentos, ademais de forma passiva, fazendo o oposto de educar, indo apenas pelo caminho de “instruir” (que etimologicamente significa “pôr para dentro”, “amontoar”).

Como tudo seria bem diferente se os pais soubessem ter tempo para olhar os filhos, para sorrir, para brincar (pelo menos 10 minutos por dia!), para dialogar, para rezar, para exigir responsabilidades (“castigando”, se necessário), para educar para a responsabilidade (desde pequenos, executarem tarefas simples (…), para educar para as contrariedades (…) para educar para a austeridade (…) E soubessem dar um bom testemunho de vida! 

Tudo seria bem diferente se os professores “amassem” os alunos, soubessem “criar laços”, ser simpáticos e empáticos, soubessem promover nos alunos o desejo de “saber” (mas para termos alunos apaixonados pelo conhecimento temos que ter mestres apaixonados pelo seu trabalho…). Neste contexto de educere/ educare como seria bom que todos os educadores procurassem converter a criança, o adolescente, o jovem no (principal) protagonista do seu crescimento!

 

Texto adaptado e publicado originalmente no site Ponto SJ

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