Youtube: agora é vez dos pequenos

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Canal Mundo da Menina tem mais de 1,7 milhões de inscritos no Youtube | Foto: Divulgação

Cansados dos conteúdos infantis que passam na TV, youtubers mirins entre 8 e 14 anos estão indo para internet produzir novos conteúdos, ganhar seguidores e faturar dinheiro. Não tem mais volta: A 3ª geração de crianças produtoras de conteúdo chegou

 

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Youtube nasceu há pouco mais de uma década (fev. 2005) como um repositório de vídeos. Depois de alguns milhares de virais, gatinhos e bebês fofos, as pessoas passaram a entender o site como uma plataforma poderosa de distribuição de conteúdo próprio, dando início a um processo sem volta de quebra de hierarquias e paradigmas no mercado de conteúdo.

Mais e mais pessoas passaram a usar o Youtube pra publicar conteúdo e gerar receita a partir deles. Foi a 1ª geração de youtubers brasileiros, pessoas como Cauê Moura, Felipe Neto, PC Siqueira, que desbravaram os caminhos da profissionalização e se tornaram fenômenos de audiência, influência e negócios. Seguindo os passos de quem já era referência em conteúdo, os teens conquistaram espaço e a 2ª geração surgiu. Mas, dessa vez, a coisa já começava a tomar proporções gigantescas, com a internet cada vez mais onipresente no país, principalmente entre o público jovem. Canais como o Eu fico Loko, de Christian Figueiredo, ou 5inco Minutos, de Kéfera Buchmann, passaram a tomar conta do site e da audiência, dando início ao que membros da 1ª geração de youtubers chamou carinhosamente de “Youtube Teen”.

Se a primeira geração de youtubers já movimentava muitos fãs, a segunda deixou todos eles ainda mais histéricos e engajados. A fama na internet se tornou sinônimo de muita influência, dinheiro e engajamento no mundo fora da internet. Hoje, fenômenos youtubers lançaram livros (físicos) que viraram best-sellers em livrarias pelo Brasil todo. Ou então o valor cobrado na tabela por uma pessoa como Christian Figueiredo para fazer um vídeo para uma marca: 150 mil reais. Tudo bem concreto e real, não?

O inevitável aconteceu

Enquanto esse movimento todo acontecia, uma nova geração nasceu e cresceu consumindo mídia de uma forma diferente. Para ela, não era mais necessário esperar um desenho legal passar na TV, bastava apenas buscar na internet e apertar o play. Além disso, se antes os pais filmavam seus filhos e publicavam na internet, agora são as crianças que estão com a câmera na mão e fazem seus próprios vídeos para as redes sociais.

Com o crescimento do Youtube e o surgimento de ídolos da plataforma, novas gerações de produtores de conteúdo se sentiram inspiradas. Supervisionadas pelos responsáveis, as crianças passaram a explorar ainda mais o potencial da internet e da criatividade em frente às câmeras.

O Youtube não divulga o tamanho do segmento infantil do site, mas reconhece o crescimento dos canais feitos por youtubers mirins. De acordo com Mariana Felice, gerente de comunicação da Google no Brasil, as crianças de hoje querem fazer parte da produção do conteúdo que consomem e não apenas assistir passivamente aos conteúdos que estão prontos para eles.

Fama & grana

A força e o tamanho dos canais produzidos por crianças ainda não foram percebidos pela maioria das pessoas. Vitor Knijnik, sócio da Rede Snack e responsável pelo canal infantil ‘Mundo de Menina’ —  que tem mais 1.6 milhão de inscritos e já nasceu com um patrocinador de calçados infantis —  explica que esse é um universo que é visto com certa curiosidade, onde se pinçam crianças que são tratadas como mini talentos do entretenimento. Mas na verdade estamos falando de um fenômeno que não é particular e que já faz parte do cardápio dos hábitos de consumo de mídia de toda uma geração.

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Julia Silva possui mais de 2,7 milhões de inscritos em seu canal no Youtube | Foto: Divulgação

Esses youtubers possuem seguidores fiéis que acompanham seus vídeos e que ficam emocionados quando os conhecem. As marcas já começam a aproveitar esse engajamento para promover eventos de “youtubers mirins” como, por exemplo, os encontros que rolaram nas lojas da Ri-Happy ou da LongJump.

Com o aumento do conteúdo produzido por crianças e para crianças, este passou a ser um nicho desejado pelos anunciantes, “[os canais] estabelecem um diálogo com o público, situação diferente dos canais a cabo, dedicados ao público infantil como Discovery Kids, que são elaborados por adultos”, compara Vitor da Rede Snack.

A maioria dos canais é parceira do Youtube, o que significa que eles podem monetizar seus vídeos com anúncios antes, durante ou depois da exibição dos vídeos. Nenhum dos canais revela valores. Um levantamento recente, elaborado pela consultoria Outrigger Media, constatou que Charli, americana de 8 anos, dona do canal CharlisCraftyKitchen, com mais de 770 mil inscritos e 780 milhões de views, teve um rendimento estimado superior a de U$128 mil por mês com publicidade no Youtube em 2015.

Hoje, uma das principais youtuber mirins do Brasil é Julia Silva, que possui um canal desde de 2007 e atualmente conta com mais de 2 milhões de seguidores e mais de 615 milhões de visualizações.

 

Mas nem tudo são flores

 

É realmente incrível que essas crianças estejam produzindo seu próprio conteúdo e também muito emblemático, já que quanto mais jovem a geração, mais importantes são as mudanças (e sem volta) no comportamento de consumo de mídia e conteúdo.

A idade mínima para ter um canal no Youtube é de 13 anos. De acordo com a plataforma os seus canais infantis parceiros são supervisionados pelos pais das crianças e que todo o contato é feito com os responsáveis.

Em 2015 um caso chamou atenção. O caso da Blogueira fitness infantil Anna Clara Mansur. A polêmica girou em torno da superexposição de uma menina de apenas 9 anos e que, já naquele momento, parecia ser escrava do culto ao corpo perfeito. Muito se discutiu sobre quanto aquilo era positivo ou não para a criança.

Sabemos que a relação com a privacidade é bem menos rígida para gerações mais jovens, pois elas já nascem e crescem inseridas nessa cultura de superexposição. Se expor é a regra e não a exceção. Mas, quando estamos falando de crianças, é consenso geral de que não é bom, saudável e seguro postar indiscriminadamente coisas sobre elas na internet.

É assustador que crianças estejam se expondo excessivamente na internet? Sim. Mas, ao mesmo tempo, não é. Muito tem a ver com a geração e com a maneira que essa divulgação excessiva é feita. Uma coisa é a divulgação da vida para compartilhar experiências. Outra coisa é fazer isso com o intuito de ficar famoso e ganhar dinheiro. Criar um canal para sua filha de 8 anos e incentivá-la a gravar vídeos semanais em troca de fama e dinheiro passa que tipo de mensagem para essa criança?

Essa é a primeira vez que estamos lidando com o fenômeno de crianças produzindo conteúdo na internet em larga escala. Ao mesmo tempo que é empolgante ver o quanto os hábitos de consumo de mídia mudaram, é também preocupante pensar no significado disso tudo e nos impactos que isso pode ter nessa geração. Por enquanto, ninguém tem as respostas.

Publicado no Jornal Transcender de julho/agosto de 2017

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