top of page

A Igreja caminha com o povo que cuida ao jeito do bom samaritano

Eugénia Quaresma é diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações e a propósito do tema da Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado neste ano de 2024, assina um artigo de opinião na Rede Sinodal em Portugal que aqui publicamos.


Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações / foto: Agência Ecclesia

“Deus caminha com o seu povo” é o tema da Mensagem do Papa Francisco para o 110º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Em comunicado publicado no passado mês de fevereiro, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral informou que “a mensagem se concentrará na dimensão itinerante da Igreja, com um olhar especial para os irmãos e irmãs migrantes, ícone contemporâneo da Igreja a caminho”.


O Dicastério sublinha que “a sugestão do Papa Francisco consiste num itinerário a ser percorrido em conjunto, de maneira sinodal, superando todos os obstáculos e ameaças, para chegar à verdadeira pátria. Durante o percurso, onde quer que se esteja, é essencial reconhecer a presença de Deus que caminha com o Seu povo, assegurando-lhe orientação e proteção a cada passo”.


“Portanto, o ponto de partida é reconhecer o Senhor presente em Seu povo; o Emanuel que, em cada migrante, bate à porta do nosso coração e se propõe ao encontro”, pode-se ler no site do Dicastério.


Migrantes nas orações do Papa

Segundo a Agência Ecclesia que cita a Organização Internacional das Migrações (OIM), 8565 pessoas morreram em rotas migratórias em todo o mundo, em 2023, sendo este o ano mais mortal já registado. Estes dados são muito preocupantes e aumentam a responsabilidade de quem está no terreno e quer ajudar.

O acompanhamento pastoral da Igreja aos migrantes e refugiados é uma das áreas temáticas prioritárias confiadas ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que promove o chamamento do Papa Francisco a dar uma resposta concreta a este desafio.


Neste sentido, este Dicastério vaticano acompanha as igrejas locais e as diferentes realidades eclesiais que realizam o trabalho de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e promove várias iniciativas de defesa nessa área.


De especial importância foi o momento de oração presidido pelo Papa Francisco juntamente com os membros do Sínodo na Praça de S. Pedro no dia 19 de outubro de 2023. Na ocasião, o Papa convidou os que estavam presentes e o mundo inteiro a rezarem por todos aqueles que perderam as suas vidas ao longo das várias rotas migratórias.

No seu discurso, o Papa Francisco comentou a parábola do Bom Samaritano e lembrou a Encíclica “Fratelli tutti” como chave de leitura para responder ao chamamento do Evangelho para que nos façamos próximos “de todos os viandantes de hoje, para salvar a sua vida, cuidar das suas feridas, aliviar o seu sofrimento”.


O Santo Padre também destacou os perigos das viagens migratórias e os riscos que muitas pessoas enfrentam nessas rotas, tendo que atravessar desertos, florestas, rios e mares.


“Temos todos de nos comprometer em tornar mais segura a estrada, para que os migrantes de hoje não caiam vítimas dos salteadores. É necessário dobrar de esforços para combater as redes criminosas, que especulam sobre os sonhos dos migrantes; mas ocorre igualmente indicar-lhes estradas mais seguras. Há necessidade, pois, de maior empenho para se ampliar os canais migratórios regulares”, exortou o Papa.


Por fim, Francisco reconheceu que “no cenário mundial atual, é evidente a necessidade de fazer dialogar as políticas demográficas e económicas com as políticas migratórias, em benefício de todas as pessoas implicadas, sem nunca nos esquecermos de colocar no centro os mais vulneráveis”.


Escutar o grito dos mais vulneráveis

Eugénia Quaresma é diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações e a propósito do tema da Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado neste ano de 2024, assina um artigo de opinião na Rede Sinodal em Portugal que aqui publicamos.

“Deus caminha com o seu Povo é o tema que conduzirá a Igreja rumo à celebração do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado deste ano.

Um Deus compassivo e cheio de bondade, que escuta o grito e o clamor do seu povo, que confia pacientemente naqueles que escutam e guardam a Sua palavra, e a colocam em prática com sentido de urgência. Um Deus Que aguarda benevolente a conversão dos que se afastam, Um Deus que revela-se em todos aqueles que cuidam dos mais vulneráveis, ainda que nem sempre conscientes de que acolhem o próprio Cristo (cf. Mateus, 25). Ainda que nem sempre sejam conscientes de que hospedam anjos. (Cf. Carta aos Hebreus 13, 2)

Assim também os migrantes e refugiados nem sempre estão cientes da dimensão profética da sua deslocação pelo mundo. No seu êxodo acusam governantes que não servem nem defendem o bem comum, nem promovem o verdadeiro desenvolvimento integral dos países e dos povos, denunciam as insuficiências da cooperação internacional. Denunciam as violências impostas por guerras absurdas e terroristas, denunciam a inviabilidade da vida provocada pelas alterações climáticas.


Escutar o grito dos mais vulneráveis da mobilidade humana, é acreditar que mesmo na sua fragilidade podem ser protagonistas das soluções. A debilidade não anula a liberdade de sonhar, projetar e construir o futuro. Aprender a escutar com esta amplitude e certeza de que somos companheiros de percurso, é transformador. E conduz-nos à inclusão. Capacita-nos a edificar a Igreja com todos, sem deixar ninguém para trás. 


A Igreja escuta as necessidades do povo que acolhe e as necessidades do povo que é acolhido, e à luz da Palavra de Deus, ao jeito de Jesus compassivo e misericordioso, prepara e aponta para o Reino dos Céus.

A sinodalidade é constitutiva da nossa identidade eclesial ensina-nos a enfrentar as dificuldades e ultrapassar obstáculos internos e externos à vida em comunidade, visa transformar estruturas internas e iluminar as estruturas sociais que nos envolve a todos, tem no horizonte uma conversão do olhar e de atitudes. Baseia-se numa escuta ativa, que conduz ao diálogo e ensina a lidar com a diversidade; a sinodalidade guiada pelo Espírito orienta-se por uma autoridade que advém da Verdade e da Vida, percorre o Caminho da Misericórdia, exige Justiça e Paz, para todo o ser humano, para todos os povos.


A autoridade da Igreja está ao serviço da comunhão, do diálogo tantas vezes difícil, da construção de pontes, da defesa e do cuidado da dignidade humana, da promoção do bem comum, da responsabilidade partilhada, da solidariedade e da fraternidade.


A Igreja caminha com o povo que sofre. A Igreja caminha com o Povo de coração transviado, A Igreja caminha com o povo que cuida ao jeito do bom samaritano. A Igreja caminha com mártires e missionários, força e presença de Deus, testemunho de uma fé ardente, que dá sentido à vida.

Deus caminha com o seu povo peregrino de esperança num futuro diferente, que se oriente por sinais de humanidade, rumo a um novo Pentecostes.”


O Dia Mundial do Migrante e do Refugiado celebra-se a 29 de setembro.

Laudetur Iesus Christus


Por Adriana Masotti – Vatican News


 

 

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado sobre Mundo, Igreja e Missão, assine a nossa newsletter clicando aqui



Comentários


bottom of page