Camarões, o sonho de uma vida
- Editora Mundo e Missão PIME
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Durante quarenta anos, a missionária da Imaculada irmã Giuseppina Ravasio dedicou-se à pastoral e à formação em diferentes regiões do país, das aldeias na floresta às áreas urbanas. E agora está pronta para recomeçar.

Uma missionária camaronesa
“Sou mais camaronesa do que muitos camaroneses!”. Irmã Pina Ravasio diz isso brincando, mas com um fundo de verdade. Natural de Bérgamo, com cinquenta anos de vida religiosa, ela vive há quarenta anos nos Camarões, onde a média de idade da população ultrapassa pouco os 18 anos. De volta à Itália por razões de saúde, ela está pronta para partir novamente e continuar compartilhando sua vida com as comunidades às quais foi enviada, nas florestas do Sul como nas regiões mais áridas do Norte, sempre com o mesmo estilo: proximidade, escuta e formação.
Primeiros passos na missão
Chegando em 1984, irmã Pina iniciou seu caminho missionário em Sangmélima, no sul do país. Ali mergulhou na língua e na cultura bulu, deslocando-se entre os povoados da floresta.
“Praticamente eu era um pássaro da mata!”, diz com uma sutil ironia que de vez em quando rompe sua natural discrição típica de uma legítima bergamasca. “No fundo — acrescenta logo em seguida — não fiz nada de especial…”.
Como se não fosse “especial” permanecer durante quatro décadas no mesmo país, fiel a uma vocação missionária e a um profundo sentimento de proximidade com um povo do qual já se sente parte. “Os médicos dizem que posso partir novamente”, acrescenta sorrindo. Era exatamente isso que queria ouvir.
Um país de contrastes
Os Camarões já são casa, família e comunidade, embora ao longo dos anos ela tenha conhecido situações muito diferentes em um país que é, de fato, uma “África em miniatura”, como gosta de ser chamado. Essa realidade apareceu em toda a sua diversidade e exuberância também durante a visita apostólica do Papa Leão, realizada em abril passado, na viagem que o levou também à Argélia, Angola e Guiné Equatorial.
Os Camarões, porém, são o único desses países a ter recebido quatro visitas de um Pontífice. Um grande motivo de orgulho e alegria para uma população que, no cotidiano, ainda enfrenta muitas dificuldades e sofrimentos.
Formação e presença
Irmã Pina conhece bem essas dificuldades, porque as compartilhou desde o início. O coração de sua missão ficou claro logo nos primeiros anos: estar ao lado das pessoas, oferecendo formação humana, religiosa e espiritual. Ela nunca se limitou às estruturas já existentes — como paróquias, dispensários, internatos ou escolas —, mas sempre privilegiou a presença direta nos povoados, dedicando-se à pastoral e à educação.
Mulheres e juventude
“Nossa missão”, conta, “ficava em plena floresta, na diocese de Sangmélima. Quando cheguei, tinha 34 anos e estava cheia de energia. Aprendi a língua local, visitava as comunidades e me ocupava sobretudo da formação das mulheres. Esse era o nosso carisma. Ao mesmo tempo, administrávamos um dispensário e um internato, onde foi muito interessante encontrar e conhecer os jovens, seus desafios e suas aspirações”.
Durante oito anos, ela mergulhou no universo da floresta, marcado também por muitas crenças profundamente enraizadas e práticas tradicionais às vezes difíceis de compreender e aceitar.
O impacto da cidade
Mas, em certos aspectos, ainda mais impactante foi a passagem para a cidade. Em 1990, as Missionárias da Imaculada decidiram abrir uma nova casa na capital Yaoundé, onde irmã Pina se deparou com problemas completamente diferentes, mas igualmente desafiadores.
“Depois de dez anos, e sobretudo após muitas crises de malária, minhas superioras decidiram que eu deveria voltar para a Itália”, conta a missionária que, também ali, certamente não ficou parada.
Tempo de formação
Em Roma, ela frequentou cursos na Universidade Urbaniana e na Gregoriana, buscando atualização em alguns temas e aprofundamento em outros. Foi um período importante de formação, que lhe permitiu retornar à África com novos instrumentos e renovado impulso missionário.
Uma nova partida
Em 1996, ela voltou a voar rumo aos Camarões. Desta vez, porém, o destino era o Norte, na região de Bibémi, diocese de Garoua.
“Foi como um novo começo”, reflete hoje.
Nessa região do país, de maioria muçulmana, retomou seu sonho missionário. Enfrentou o desafio de entrar em uma cultura totalmente diferente daquela do Sul, aprendeu outra língua — o fufuldé —, adaptou-se a viver em um contexto de povos tradicionalmente nômades e predominantemente muçulmanos. E começou novamente a construir relações autênticas com as pessoas.
Entre estradas e perigos
“Aqui também eu me deslocava muito, de um povoado para outro, frequentemente sozinha”, recorda. “Eu não tinha medo, mesmo que já existissem naquela época os chamados coupeur de route, bandidos que bloqueavam as estradas e roubavam os viajantes. Às vezes podiam ser muito violentos quando não conseguiam o que queriam. Mas eu sempre soube que o Senhor estava comigo!”.
Uma acolhida fraterna
São sobretudo as boas lembranças que ainda hoje a acompanham. A vida no Norte era intensa e rica em encontros e relacionamentos, que a faziam novamente sentir-se em casa, apesar das dificuldades: os povoados eram isolados e acessíveis apenas durante a estação seca; as condições de vida da população eram extremamente duras; o acesso à escola e aos cuidados médicos era um grave problema.
Irmã Pina retomou suas peregrinações de uma comunidade a outra, dedicando-se também ali às atividades pastorais, à preparação para os sacramentos, ao fortalecimento da fé e à formação humana integral, especialmente de mulheres e crianças.
“Foi uma experiência lindíssima, única!”, diz a religiosa com brilho nos olhos. “As pessoas me acolheram como uma delas, faziam-me sentir parte do povoado”.
Laços além da religião
Em Béré, particularmente, aprofundou o estudo do fufuldé com um agricultor muçulmano da região.
“Nos tornamos como irmão e irmã. Gostávamos verdadeiramente um do outro e havia também um forte vínculo com suas esposas”.
Alguns começaram a dar seu nome aos filhos. Outros, incentivados por ela, passaram a mandar as crianças para a escola.
“No início ninguém fazia isso. Depois, um dia, um dos filhos do meu professor de fufuldé me mostrou com um graveto na terra que sabia ler e escrever. Estava especialmente orgulhoso disso. E eu também. Pouco a pouco, todos começaram a mandar os filhos para a escola e me contavam isso com orgulho”.
Catequistas e evangelização
Durante três anos, irmã Pina cuidou de um setor da paróquia que o pároco visitava apenas uma vez por mês e nas festas de Natal e Páscoa.
“Nós, como missionárias, investimos muito na formação de crianças e jovens e, sobretudo, dos catequistas, que têm um papel fundamental na evangelização e em manter viva a fé nas comunidades”.
“Foram anos realmente belíssimos!”, repete frequentemente a religiosa. “Na Vigília Pascal”, recorda, “havia muitos batismos de adultos que tinham feito um caminho de três anos: descobriram o Evangelho como palavra de liberdade, também das correntes de tantos medos e falsas crenças”.
Missão no cárcere
Após cerca de vinte anos, irmã Pina foi novamente transferida para o Sul, desta vez para Ambam, na floresta. A mudança não foi fácil, não apenas porque deixava para trás muitos relacionamentos profundos e uma vida, em muitos aspectos, livre e “nômade”. Mas também porque lhe foi confiada a pastoral carcerária, experiência que a levou para um contexto marcado pelos “fechamentos”. Em contato com cerca de duzentos detentos, em sua maioria jovens, descobriu realidades particularmente dramáticas. Rapidamente, porém, tornou-se para muitos deles — especialmente para as mulheres — uma presença materna, um ponto de referência humano antes mesmo de religioso.
Presença e dignidade
“Eu não dava dinheiro, eu dava a mim mesma”, conta.
E mesmo nas situações mais duras — condenações, torturas, solidão — sua presença representava consolo e dignidade. As detentas compartilhavam com ela histórias e sofrimentos, encontrando um espaço de escuta e humanidade. Era uma missão diferente, menos visível, mas igualmente essencial.
“Foi uma experiência humana muito forte”, diz, “também porque tive de enfrentar situações que não conhecia e que me abalaram profundamente”.
Irmã Pina recorda uma família inteira condenada por tráfico de pessoas: haviam vendido uma sobrinha pequena na vizinha Guiné Equatorial. Outra mulher fora acusada pela morte de três crianças das quais haviam retirado os órgãos.
“Às vezes eu não conseguia dormir por causa dessas histórias, ou quando alguns eram condenados talvez injustamente ou por pequenos delitos, ou porque eram amarrados e torturados… Quanto sofrimento!”.
A “mãe dos bandidos”
Pouco a pouco, conquistou a confiança não apenas dos detentos, mas também dos funcionários da prisão. Ganhou o apelido carinhoso de maman des bandits, a “mãe dos bandidos”.
Eles a respeitavam e tinham carinho por ela.
“Fazíamos muitas atividades, encontros e momentos ligados à vida religiosa, mas sobretudo eu dedicava tempo à escuta e ao diálogo”.
Recomeçar sempre
Mas Ambam também não seria seu destino definitivo. Nos últimos anos, ela foi novamente transferida para o Norte, na missão de Djalingo.
“O Senhor sempre nos surpreende!”, comenta.
Ali dedica-se às pessoas com deficiência em um Centro administrado pelas Missionárias da Imaculada e, sobretudo, à pastoral comunitária, trabalhando em equipe com sacerdotes e leigos.
Continua apoiando famílias e grupos de mulheres, valorizando tudo aquilo que foi construído ao longo dos anos anteriores e colocando-se mais uma vez à disposição da missão.
“Esses quarenta anos são um sonho realizado!”.
Por Mondo e Missione - Tradução e Adaptação Redação Mundo e Missão
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