Minha experiência com a Covid-19

"Tomei esse sinal como se fosse um alerta de Deus que me queria salvar, pois ainda há muito para se fazer como sacerdote em missão." Padre Emmanuel Giddi, missionário do PIME, passou pela doença do Covid-19 e compartilha uma reflexão profunda

pe. Emmanuel durante numa procissão (cred. Paróquia Santa Maria de Belém)
 

Era sexta-feira, dia 21 de janeiro de 2022. Eu parti da cidade de Belém-PA para a cidade de São Paulo-SP, a fim de passar uns dois dias e poder celebrar uma santa missa em memória dos padres Koppula Vandanam Raju e Antônio (Toninho) Carlos Nunes, ambos do PIME, vitimados pela covid-19, exatamente nessa mesma época, um ano antes. Cheguei ao aeroporto de Congonhas às 22h no mesmo dia. O padre Dowluri Suresh Kumar (Bosco), pároco de Nossa Senhora dos Anjos, buscou-me no aeroporto, para minha alegria. Acolheu-me carinhosamente. Fiquei muito feliz, porque faziam dois anos que não nos encontrávamos por conta da pandemia. Tão logo chegamos à paróquia, ele fez arroz branco e esquentou a carne que sobrara no dia anterior. A hora do jantar já havia passado, evidentemente, pois era quase meia-noite quando eu comi rapidinho. Após uma breve conversa, cada um se recolheu para dormir.


O início do convívio com a doença

Deitei-me e logo peguei-me num sono profundo. Infelizmente, ele foi curto, pois acordei com uma estranha sensação de sufocamento. Aquele foi o último sono na semana, porque ali começava meu convívio, ainda que inconsciente, com a covid-19. Passei a noite como se dormisse com galinhas. Ou seja, não tive um sono pacífico até ao amanhecer, com contínuas interrupções por sufocamento. A sensação era de que o ar ao redor estivesse bloqueado para mim Na verdade, era o corpo que parecia recusar o ar, porque ele não entrava fácil pelas narinas. Sentia igual, mesmo escancarando a janela. No dia seguinte, ao tomar café, partilhei a experiência com o padre Bosco. A ideia dele era que o quarto não permitia a livre circulação de ar.


Na noite de sábado, dia 22, celebrei a santa missa pelas almas dos padre Raju e Toninho. Após a missa, alguns participantes me disseram que a homilia refletia muito bem a importância da Palavra de Deus em nossa vida. O evangelho era de Lucas 1,1-4; 4, 14-21, como no terceiro domingo do tempo comum (neste, Jesus proclama a leitura do profeta Isaías na Sinagoga).


Do mesmo modo, pela parte da manhã no domingo, padre Bosco e eu concelebramos uma missa na matriz. Presidi outra em uma das comunidades. Ao final de cada celebração, eu me apresentava aos paroquianos e os cumprimentava, como de costume, para, em seguida, trocar uma rápida conversa. Até então eu não sabia que já estava infectado pela covid.


Voltamos para casa. Descansamos. À noite jantamos e nos recolhemos mais cedo, pois, no dia seguinte, segunda-feira, dia 24, deveríamos ir a Londrina para participar da Assembleia Regional do PIME, de 24 a 28, da qual participam todos os padres do PIME Brasil. Antes de dormir, fui avisado pelo padre Bosco que, no dia seguinte, deveríamos passar pela farmácia para um teste rápido da covid. Assim, estaríamos seguros de que estávamos livres do vírus, a fim de evitarmos o contágio dos padres na Assembleia.


Eu me sentia um tanto fraco, cansado, com tosse muito leve. Não dormi nada naquela noite. Sentia muita falta do ar. No entanto, levantei-me cedo, tomei café enquanto o padre Bosco arrumava suas coisas para viajar. Enfim, partimos da casa regional do PIME onde nos esperava o padre Ace Valdez. Ele nos levou de carro à farmácia, para o teste. A ansiedade pelo resultado negativo era evidente. Foi o que ocorreu no teste do meu companheiro; no meu, não. Fiquei chocado com o resultado positivo, mesmo depois de ter tomado a terceira dose de vacinação, poucos dias antes de viajar a São Paulo. Retornamos para casa. Fiquei isolado num quarto da casa regional e os demais padres partiram para a assembleia. E aí começou a minha luta contra a doença.


Os sintomas se manifestam mais fortes

Eu já havia lido, muitas vezes, os sintomas da covid-19 e das mortes, mas nunca tivera a experiência desta doença. Eu ouvi tanto falarem dos sintomas que os infectados apresentavam: febre, tosse seca, coriza, cansaço e perda do paladar etc. E que os sintomas da doença podem sofrer mudanças conforme também as variantes. Por exemplo, na variante Delta, descoberta em outubro de 2020 na Índia, que, além dos mesmos sintomas do corona vírus, apresentava tosse mais persistente, coriza, espirros, dor de cabeça e de garganta. E na Ômicron, que acrescenta dor no corpo e extremo cansaço, além dos demais sintomas, evidentemente.


Eu nunca sofrera uma doença tão fatal na minha vida. Confesso que tive um pouco de todos os sintomas das três variantes citadas acima. Especialmente, a experiência de falta de ar nas narinas e nos pulmões foi horrível. Quando estamos com uma gripe comum, podemos respirar pela boca, mesmo que as narinas estejam entupidas. Mas, com a covid não tem jeito, pois ela não apenas se multiplica dentro do nariz e em outras partes do sistema respiratório, como também bloqueia todas as vias respiratórias.


A consequência desse bloqueamento são principalmente três: não deixa inspirar o ar e nem expirá-lo. A fala e o fluxo da respiração frequentemente continuam sendo interrompidos. Pior ainda foi a inflamação dos pulmões. Portanto, eu inspirava e expirava com grande esforço e sentia a falta de ar nos pulmões. Principalmente à noite, a expiração continuava sendo interrompida e até bloqueava o fluxo do ar completamente. Neste caso, a pessoa pode morrer dormindo, sem perceber. Portanto, pelo medo de morrer durante o sono, tentei não dormir por três noites, até que a gravidade passasse.


Na noite do dia quatro eu não consegui resistir ao sono e, depois da meia noite, dormi, mas com muita dificuldade. Quando tomei a consciência de manhã sem dificuldade, agradeci a Jesus, porque pensava que já tinha morrido durante o sono. Felizmente estava vivo. Tomei esse sinal como se fosse um alerta de Deus que me queria salvar, pois ainda há muito para se fazer como sacerdote em missão. Entendendo o sinal da salvação de vida, aumentei os exercícios respiratórios para combater o vírus.

Nesta tentativa, acompanhavam-me quatro coisas importantes: a boa alimentação com frutas, grande quantidade de água para hidratar, frequentemente, a boca, medicamentos para tirar a febre e limpar os pulmões e, enfim, inalação para poder deixar os pulmões ativos e reagentes contra o vírus. Eu fazia inalação do vapor três vezes por dia e, assim, durante uma semana. Ao longo de duas semanas, eu alimentava, tanto o corpo quanto a alma, com contínua oração.


Uma purificação interior

Do início da doença ao seu fim, sempre me lembrava dos padres do PIME que morreram, vítimas da covid no ano anterior, especialmente, os padres Koppula Vandanam Raju e Antônio Carlos Nunes, porque eles estavam sempre muito próximos de mim, em qualquer necessidade. Acima de tudo, porque também eles passaram por essa dor e sofrimento exatamente no mês de janeiro de 2021.


Durante ao longo período de internação deles, eu rezava chorando para que eles recuperassem a saúde e retornassem à vida normal. Mas a oração não deu o resultado que eu tanto esperava. Portanto, deixo isso nas mãos de Deus, porque só Ele conhece o mistério da vida e da morte. No entanto, agora esta foi a minha vez de ter a experiência da covid, a fim de explicar aos outros sobre esse tipo de doença fatal.

Durante o sofrimento, refleti sobre o mistério da dor e da morte. Com certeza, a doença é um mistério que não está em nossa compreensão total. Mesmo que a ciência avançada descubra a causa desse mal e os sintomas do organismo com seus remédios, ela ainda não encontrou a solução total.

Por exemplo, ainda não se conseguiu parar o contágio da doença. Eu não sou especialista para analisar o vírus patologicamente, mas tento interpretá-lo de forma religiosa na condição de sacerdote. Alguém pode me perguntar: “como eu interpreto a morte de milhares de pessoas por causa da covid”. Sem entrar na discussão a respeito de onde o vírus foi criado e o seu porquê, etc. Eu reflito apenas sobre a causa geral da doença e, biblicamente, sobre o seu porquê, mesmo não sendo um grande teólogo, um místico. Mas, posso opinar, com a simplicidade do meu conhecimento, sobre os sinais dos tempos. Doenças suscitam-se na vida dos homens como instrumentos para purificar o seu interior, para pensar sobre a vida e em sua finitude.


Quando o rei Davi pecou, Deus lhe ofereceu três opções para poder se purificar. Ele disse: “O que preferes: três anos de fome na tua terra, três meses de derrotas diante dos inimigos que que te perseguem, ou três ou três dias de peste no país?” (2 Sam 24,13). O rei Davi, com grande angústia, escolheu a doença por três dias para a purificação de seus pecados. É provável que Deus me purifique também desta mesma maneira.


É claro que Deus não me deu nenhuma opção, nem me disse quais foram meus pecados. Mas vejo em Jesus que perdoa os pecados, ainda antes de curar a doença. Só Ele sabe tudo do nosso interior. E agora é o tempo da purificação pela sua misericórdia, porque a purificação das pessoas e de seus pecados, ocorre afim de salvá-los eternamente.


pe. Emannuel durante numa missa na comunidade (cred. Paróquia Santa Maria de Belém)

Firmes e perseverantes na esperança

Mesmo que a pandemia deixe as pessoas tristes, nós nos alegraremos no fim desta vida, porque a bem-aventurança de Jesus nos consola assim: “bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (por Deus)” (Mt 5:4). Porque a tristeza, a doença e até a morte não são o fim, mas apenas o meio. O fim é a alegria em Deus e a vida eterna. Deus nos dará toda alegria no céu ao final desta vida. Enfim, essa é a nossa esperança cristã.


Nesta ocasião da minha reflexão, quero me relembrar das palavras de São Paulo na Carta aos romanos, “mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (8,37-39). Portanto, como cristão eu devo ficar bem firme na fé, rezando pelo mundo para enfrentar qualquer tipo de aflição e tribulação com a esperança no futuro.

Louvado seja Nosso Senhor, Jesus Cristo!


Padre Giddi Subba Rao Emmanuel, PIME