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O coração da África

há 12 minutos
9 min de leitura

Uma viagem ao leste da República Centro-Africana, onde a pobreza, o isolamento e os conflitos continuam afligindo a população. Mas onde também existem muitos sinais edificantes de resistência e caminhos de reconciliação.

O tempo passa, a missão permanece. Missionários retratados há 25 anos e atualmente, mostrando uma trajetória de dedicação e serviço à missão. Foto: Reprodução Vatican Media
Foto: Foto de Damian Patkowski na Unsplash

O pequeno avião do Programa Mundial de Alimentos (PMA) sobrevoa uma massa compacta de verde intensíssimo. Somente o grande rio Oubangui e, depois, o Mbomou conseguem se destacar naquela imensa extensão de floresta: como serpentes sinuosas, desenham amplas curvas para depois se dispersarem, aqui e ali, em pequenos riachos ramificados.


Quanto mais nos afastamos de Bangui, mais entramos em um mundo onde a natureza é mãe e senhora, poderosa e misteriosa. Não se veem estradas nem vilarejos. Uma pista de terra vermelha corta repentinamente a densa vegetação e se estende por um breve trecho para receber o avião, que sacoleja ao pousar. Destino: Bangassou, coração pulsante e ferido da África. Estamos a 730 quilômetros de Bangui, capital da República Centro-Africana, na região mais oriental deste vasto país, que as fronteiras coloniais “encaixaram” justamente no meio do continente. O rio Mbomou — atravessado por frágeis canoas que fazem a travessia entre as duas margens — marca a fronteira com a República Democrática do Congo, enquanto mais a leste encontramos a fronteira com o Sudão do Sul.

A Bangassou só se chega pelos voos humanitários da ONU ou por uma estrada de terra que exige três ou quatro dias de viagem na estação seca. Para os caminhões, são necessárias várias semanas ou até meses, especialmente quando chove.


A chegada a Bangassou

Na pista de pouso, padre Aurelio Gazzera, carmelita descalço que desde junho passado é bispo de Bangassou, abre caminho entre os militares da Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana (Minusca), com um sorriso acolhedor. É o primeiro momento de contraste e desorientação. Os militares são realmente numerosos, divididos em três grupos nacionais: Paquistão, Butão e Marrocos. Trata-se, dizem-nos, de uma troca de contingentes.


De fato, pouco depois chega um avião maior. Desembarcam outros soldados dos três países e, em seguida, prepara-se uma guarda de honra formada por militares centro-africanos, que recebem o ministro da Saúde. Em meio a toda essa formalidade, porém, surge um pequeno grupo de crianças alegres e barulhentas, que também descem do avião, acompanhadas por duas religiosas e algumas “mães”.

«São nossas crianças do orfanato!», diz o bispo, divertido, enquanto os pequenos imediatamente o cercam.

Ainda não nos afastamos da pista de pouso, onde apenas algumas coberturas protegem do sol inclemente, e o cenário já se apresenta em toda a sua complexidade paradoxal.


Há o reflexo de uma guerra que nunca terminou completamente. Há a pobreza evidente de pessoas que sobrevivem com quase nada. E, pouco distante, está a enorme base da Minusca, com milhares de pessoas, veículos blindados e helicópteros: uma presença internacional imponente ao lado de pessoas frágeis e marginalizadas em sua própria terra. Sobre tudo isso, porém, prevalece a alegria das crianças.

Um fio condutor constante durante os dias de imersão nesta terra à beira do abismo, onde, apesar de tudo, as pessoas são calorosas e acolhedoras, sempre prontas a compartilhar o pouco que têm, começando pelo sorriso.


Um bispo entre os conflitos

O bispo Gazzera, de 64 anos, natural de Cuneo, é um veterano da República Centro-Africana, onde chegou em 1992. Ali fez de tudo, especialmente na diocese de Bouar, onde os carmelitas têm uma presença histórica e desenvolvem inúmeras obras e iniciativas.

Padre Aurelio, aliás, é alguém que não consegue ficar parado e sabe fazer de tudo. Inclusive “colocar-se no meio”. Foi o que fez em 2013, quando os milicianos da coalizão Seleka avançavam do norte em direção à capital, matando, estuprando e saqueando.


«Em determinado momento, tomei coragem e fui dizer aos seus líderes que precisavam parar de perseguir a população».

Por isso, também, recebeu o apelido de “o homem que dobra os fuzis”.

Ainda hoje, mesmo estando no outro extremo do país, ele e sua Igreja — pobre em tudo, mas rica em energia e humanidade — continuam representando um ponto de apoio para a esperança em situações que frequentemente parecem desanimadoras. Na verdade, em Bangassou e na região ao redor, a guerra conheceu sua fase mais aguda e dramática em 2017. Mas, na prática, as tensões e os focos de violência continuam até hoje.


O preço de construir a paz

Em 29 de junho, cinco dias depois de se tornar bispo, um de seus sacerdotes foi assassinado. Trata-se de padre Crépin Martial Monga, que em Zémio — a cerca de 300 quilômetros a leste de Bangassou — estava conduzindo um trabalho de mediação entre um grupo rebelde, o Azande Ani Kpi Gbe (Aakg, que significa “os azande sofreram demais”), as Forças Armadas centro-africanas (Faca) e as autoridades locais. Ao fundo, estava a presença ameaçadora e nada aberta ao diálogo dos mercenários russos, ex-integrantes do grupo Wagner, contratados pelo presidente Faustin-Archange Touadéra para sua segurança pessoal e para controlar as regiões mais remotas e instáveis do país. O resultado é que quase sempre quem paga o preço é a população civil, que continua morrendo ou fugindo. Do outro lado do rio Mbomou, na República Democrática do Congo, já são mais de 50 mil os refugiados centro-africanos desta última onda de violência.

«Trabalhar pela paz é sempre arriscado. Mas é algo que já se leva em consideração», comenta padre Aurelio, convencido de que «padre Crépin não foi morto por acaso, mas por seu compromisso com a paz, o diálogo e a mediação».

De certa forma, aquele assassinato também foi um “aviso”: para ele e para todos os que tentam promover o diálogo ou se posicionar contra os poderes estabelecidos. Ainda hoje se corre risco de vida na República Centro-Africana, especialmente quando se tenta reconstruir o tecido social de comunidades dilaceradas por tanta violência.


Crianças vítimas dos rebeldes

Não muito longe de Bangassou, também voltou a ganhar força o que resta do Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army, LRA), do famigerado e misterioso Joseph Kony. Depois de aterrorizar o norte de Uganda por quase duas décadas — e de sequestrar dezenas de milhares de meninos e meninas para transformá-los em pequenos soldados —, o grupo se deslocou ao longo da fronteira entre a República Democrática do Congo, o Sudão do Sul e a República Centro-Africana. Ali é chamado de Tongo Tongo e continua espalhando violência e terror.

Zaku tem 11 anos e foi sequestrado em agosto passado. Depois de um mês de treinamento na floresta, conseguiu fugir.

«Ele foi encontrado por alguns pastores peul, que o entregaram aos guardas do parque Chinko. Estes, por sua vez, o levaram às autoridades de Bangassou», explica Ghislain Falo, educador do orfanato Mama Tongolo (Mamãe Estrela, em homenagem à mãe do bispo anterior, Juan José Aguirre), ao qual o menino foi confiado.

Em suas mãos, Falo segura o prontuário médico, que mostra que Zaku recebeu golpes de bastão e apresenta marcas de ferimentos.

«Ele teve sorte de conseguir escapar», comenta o educador, que se mobilizou para localizar a família.

«O pai veio buscá-lo justamente hoje. Esperamos que os Tongo Tongo não o encontrem…».

Também padre Brice Mbangui foi sequestrado pelo LRA.

«Cinco vezes!», diz quase brincando, como se fosse inevitável que algo assim acontecesse quando se vive em determinadas regiões.

Mas ele fica triste quando fala dos “seus” meninos sequestrados.

«Alguns voltaram depois de três anos. As meninas já tinham se tornado mães…».

Também tentaram matá-lo. Não os Tongo Tongo, porém, mas os Seleka, outro capítulo de um conflito iniciado em 2012 e que deixou consequências ainda não totalmente resolvidas.

«Em 2023, ainda havia aqui milicianos muçulmanos que perseguiam os vilarejos, sobretudo a população cristã», conta o sacerdote, que naquela época era pároco de Mboki, a 400 quilômetros a leste de Bangassou.

«Quando atacaram, os cristãos se refugiaram na igreja, mas não era um lugar seguro. Então, nós os transferimos para a mesquita, porque ali os Seleka não entrariam, e eu fui protegido por uma família de amigos muçulmanos».

Enquanto isso, porém, os milicianos saquearam e incendiaram a casa paroquial.

«Quando voltei, encontrei 16 cadáveres, que enterramos. Mas ainda não havia terminado. À noite, um miliciano veio e apontou o fuzil para mim. Disparou dois tiros, que atingiram a parte interna do meu braço esquerdo, a poucos centímetros do coração. Pela graça de Deus, sobrevivi».

Padre Brice conta a história com serenidade, enquanto mostra as marcas dos ferimentos. Sua paróquia de Mboki continua inacessível, porque foi ocupada pelos militares centro-africanos. A de Nzacko, por sua vez, foi completamente destruída.

«E, junto com a casa paroquial, destruíram também a escola, o dispensário, tudo», diz o bispo Aurelio, que denuncia a estupidez abissal de quem não conhece outra coisa além da violência cega.


Cristãos e muçulmanos unidos

Quem viveu uma experiência, de certa forma, “oposta” à de padre Brice é o atual responsável pela Caritas de Bangassou, padre Clotaire Gbaya Vickomo.

Junto com o cardeal Dieudonné Nzapalainga, natural de Bangassou, e o então bispo Aguirre, ele evitou um massacre de muçulmanos.

«Em maio de 2017 — conta —, quando começaram as revoltas dos grupos de autodefesa anti-balaka, mais de cem muçulmanos foram mortos. Todos os outros haviam se refugiado na mesquita. Mas os milicianos ameaçavam invadi-la. Por isso, nos colocamos diante deles, com os braços levantados, para servir de escudo».

O atual imã Hamid Mohammed foi ferido no ombro, pouco acima do coração.

«O bispo Aguirre literalmente salvou minha vida, estancando a hemorragia com o punho e levando-me ao hospital», pode contar hoje. «Agora, as relações entre cristãos e muçulmanos são boas. Trabalhamos juntos para manter a paz».

Encontram-se muitas histórias terríveis por estas regiões, mas também tantas histórias maravilhosas como essa. O elemento religioso, aliás, sempre foi utilizado como pretexto para colocar comunidades umas contra as outras. E para dividir o poder e os recursos deste país, que é riquíssimo em matérias-primas — especialmente ouro e diamantes —, mas está entre os mais pobres do mundo.


A riqueza que não chega

Eis outro dos muitos paradoxos terríveis que caracterizam a República Centro-Africana, onde faltam dramaticamente estruturas e infraestrutura, e os setores da educação e da saúde se encontram em condições catastróficas.

«Os professores voluntários nos vilarejos são pagos diretamente pelos pais, com valores entre 5 e 10 euros por mês — explica o bispo Gazzera. — Os outros chegam a ganhar entre 50 e 120 euros».

Nas salas de aula, não é raro encontrar mais de cem alunos no ensino fundamental e mais de duzentos nos liceus, com os estudantes acompanhando as aulas do lado de fora das janelas.


«Aqui, procuramos chegar a 80 ou 85 alunos, no máximo», diz irmã Marie Thérèse, das Irmãs de São Paulo de Chartres, que dirige a escola católica de Bangassou, com mais de 1.600 estudantes.

«Temos crianças católicas, protestantes e muçulmanas. Aqui não fazemos nenhuma diferença», esclarece a religiosa. «Vivemos momentos difíceis, mas agora que a situação voltou a uma aparente normalidade, a escola se tornou o mais importante espaço de conhecimento mútuo e convivência pacífica».

Sua coirmã vietnamita, irmã Elisabeth, por sua vez, conduz com grande dedicação o hospital da diocese.

«Durante muito tempo, cuidamos de pessoas feridas nos confrontos. Vivemos momentos muito difíceis, em que dormíamos no hospital para evitar que viessem saqueá-lo e destruir tudo. Dissemos a nós mesmas que, se fôssemos embora, não voltaríamos mais, como aconteceu em outros lugares».

Em vez disso, permaneceram e garantem um serviço essencial, especialmente para muitas mães e crianças, que encontram ali também a maternidade e o setor de tratamento da desnutrição.

O tema é extremamente atual: na República Centro-Africana, ainda se morre durante o parto e mais de dois milhões de pessoas — quase um habitante em cada três — vivem hoje em situação de insegurança alimentar aguda.


Cuidar dos mais vulneráveis

Também entre as crianças do orfanato, algumas estão visivelmente desnutridas.

«Mas vão se recuperar!», diz, otimista, irmã Yolande, que em mais de dez anos viu inúmeros casos dramáticos.

«Atualmente, acolhemos cerca de quarenta crianças aqui no centro, e a diocese sustenta aproximadamente trezentas em famílias de acolhimento. As maiores perderam os pais por causa do conflito; as menores, muitas vezes, ficaram sem a mãe, que morreu durante o parto».

Se alguém não as tivesse levado ao orfanato, elas também teriam morrido. Nos vilarejos, é impossível conseguir leite artificial, não apenas por causa dos custos, mas porque simplesmente não existe.

Uma situação de emergência que também os agentes da Caritas encontram em muitas localidades, especialmente nas mais remotas ou naquelas onde as pessoas são obrigadas a fugir da violência e vivem deslocadas, sem qualquer ajuda.

A equipe da Caritas acaba de voltar de Dembia, a cerca de 200 quilômetros de Bangassou.

«Foram necessários três dias, porque as estradas estavam intransitáveis e o carro quebrou», conta o médico John Obrou, que, apesar disso, já está preparando a próxima missão.

Impressionam a resistência e a determinação dessas pessoas, que trabalham em condições extremamente difíceis.


A esperança permanece viva

«Nós, como Igreja, procuramos fazer todo o possível para estar ao lado das pessoas, manter viva a fé sincera delas e, ao mesmo tempo, responder, dentro do possível, às necessidades e emergências», comenta o bispo Gazzera, plenamente consciente de estar diante de desafios enormes."

Como muitos outros, porém, ele decidiu permanecer, resistir, colocar-se em jogo e promover a reconciliação.

E sua própria presença já é um sinal poderoso de que a esperança não morreu.


Por Anna Pozzi - Mondo e Missione - Tradução e adaptação redação Mundo e Missão

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