O sonho de Deus para Jerusalém
- Valesca Montenegro
- há 4 dias
- 5 min de leitura
Há também um sonho de Deus para a Jerusalém em conflito. É o que afirma o patriarca latino ao apresentar uma longa carta pastoral sobre como viver como cristãos à luz do “novo paradigma” moldado pelo 7 de outubro de 2023 e pela guerra em Gaza. No modelo da “nova Jerusalém” do Apocalipse, surge um modo de convivência que supera os exclusivismos atuais e aponta caminhos de cura para as feridas. Às famílias, o convite: sejam para seus filhos exemplo de purificação da memória, narrando a verdade sem transmitir ódio.

Trata-se de uma síntese escrita com “fadiga e sofrimento”, mas também repleta da “confiança de que Deus não abandona a sua história”. Dirigida a uma comunidade específica – a do Patriarcado Latino de Jerusalém em um momento particularmente difícil –, mas com a consciência de que a Cidade Santa, mesmo em suas feridas atuais, permanece o sonho de Deus para toda a humanidade e, portanto, tem uma mensagem para os fiéis do mundo inteiro.
É este o perfil da carta pastoral “Voltaram a Jerusalém com grande alegria”, divulgada pelo patriarca latino, o cardeal Pierbattista Pizzaballa. Uma proposta para viver a vocação da Igreja na Terra Santa, oferecida tanto à sua comunidade quanto aos fiéis de todo o mundo, sobre como viver a fé cristã no coração de um conflito.
Fé no meio do conflito
O texto é longo e articulado, proposto como ponto de partida para uma reflexão a ser desenvolvida em conjunto, evitando leituras rápidas e superficiais. Suas palavras situam-se deliberadamente em um plano diferente do das questões políticas, não por desejo de se afastar da realidade.
“Análises e denúncias continuam necessárias, não podemos deixar de expressá-las”, escreve o cardeal. “Mas não serão elas que abrirão horizontes de confiança. Devem ser acompanhadas pela pergunta sobre o que o Senhor nos pede neste momento e sobre como expressar concretamente a nossa fé neste contexto difícil”.
Surge, então, a questão central que acompanha seu ministério: como viver como cristãos – como comunidade eclesial – dentro de um conflito político, militar e espiritual que ainda durará muitos anos?
Três partes da reflexão
A carta se desenvolve em três partes. Na primeira, o patriarca analisa a realidade do conflito sem concessões, destacando o que mudou nos últimos anos na Terra Santa e no mundo. Na segunda, retoma o sonho de Deus que Jerusalém é chamada a encarnar. Na terceira, apresenta implicações pastorais concretas desse olhar.
Um mundo em mudança
O ponto de partida é a mudança de paradigma marcada pelo 7 de outubro de 2023 e pela guerra em Gaza. A volta do uso da força como instrumento decisivo, a guerra transformada em objeto quase idolátrico e as novas questões levantadas pelo uso da inteligência artificial nos conflitos.
“Quantas pessoas morreram por decisão de um algoritmo?”, questiona o patriarca.
Esse cenário gerou um grande caos, com consequências profundas: a dissolução das relações humanas, envenenadas pelo ódio e pela desconfiança. O sofrimento próprio torna-se absoluto, e o outro é desumanizado – quando visto apenas como inimigo, tudo parece permitido.
Fragmentação e desconfiança
A sociedade se fragmenta em bolhas identitárias, amplificadas pelos algoritmos das redes sociais. O “nós” passa a existir apenas em oposição ao outro. Conceitos como convivência, diálogo e justiça se desgastam, enquanto o bem comum é sacrificado em favor de interesses particulares.
Apesar disso, a realidade insiste: não há alternativa à convivência.
Crise também na Igreja
O caos atinge também o diálogo inter-religioso, marcado por memórias conflitantes e instrumentalizações. E a própria Igreja local enfrenta dificuldades para manter a unidade entre comunidades de contextos distintos como Israel, Palestina, Jordânia e Chipre.
O cardeal reconhece o esforço da Igreja em proclamar a verdade, mesmo com incompreensões, mas se questiona: isso foi suficiente? Ou, em alguns momentos, prevaleceram a prudência e a busca pela sobrevivência institucional, em detrimento da dimensão profética?
Jerusalém como horizonte
É nesse contexto que emerge o “sonho de Deus chamado Jerusalém”. Em contraste com a cidade marcada pelo medo, Deus oferece a nova Jerusalém como dom de amor. Mais do que uma questão política, Jerusalém é lugar de revelação divina. Ignorar essa dimensão espiritual, afirma o patriarca, leva ao fracasso de qualquer tentativa de convivência.
Uma cidade de relações
O Apocalipse apresenta uma cidade sem templo: Deus não habita em um espaço exclusivo, mas nas relações. Os Lugares Santos devem ser preservados não para restringir, mas para garantir liberdade. Mesmo as regras atuais de convivência são necessárias, mas é preciso coragem para construir novos modelos de relacionamento, onde a fé em Deus seja fonte de encontro, não de exclusão.
Memória que cura
O cardeal propõe uma cidade de portas abertas e memória purificada. Deus não apaga a história, mas a recria. É necessário repensar categorias como culpa, justiça e perdão para construir um futuro diferente. Jerusalém, nesse sentido, não pertence exclusivamente a ninguém: é patrimônio de toda a humanidade e chamada a curar as feridas do mundo.
Caminhos pastorais concretos
Ser sinal dessa “nova Jerusalém” é a missão da Igreja hoje. Não se trata de um projeto abstrato, mas de um caminho vivido no cotidiano: nas paróquias, famílias e instituições. Entre as prioridades está a oração como base da vida: não apenas orações pela paz, mas uma espiritualidade constante que molde a vida comunitária.
Famílias e reconciliação
As famílias são chamadas a ser igrejas domésticas, educando para a fé e a reconciliação. Aos filhos, deve-se transmitir a verdade do passado com dor, mas sem ódio ou desejo de vingança.
Também se destacam as escolas, hospitais e obras sociais como espaços onde acolhida, diálogo e cura já se tornam realidade.
Diálogo e perdão
O diálogo inter-religioso, embora em crise, permanece essencial – não apenas como necessidade, mas como expressão do ser Igreja. Ele deve sair dos círculos restritos e alcançar a vida cotidiana.
É preciso ousar o perdão, não para justificar o mal, mas para romper a cadeia do ódio. E rejeitar totalmente a violência, inclusive na linguagem.
Uma esperança pascal
“Não podemos fazer isso sozinhos”, afirma o cardeal. “Mas não estamos sozinhos”. Cristo está presente nas comunidades e sustenta esse caminho.
Inspirando-se no Evangelho de Lucas, ele recorda os discípulos que, após a ascensão, “voltaram a Jerusalém com grande alegria”. Mesmo marcados pelo medo e pela dúvida, reencontraram a esperança.
Assim também hoje: não uma alegria ingênua, mas uma alegria pascal – aquela que acredita que a luz vence as trevas, que a vida supera a morte e que o amor é capaz de desarmar o ódio.
Por Giorgio Bernardelli - AsiaNews - tradução e adaptação Valesca Montenegro
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