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Papa em Metz: a fecundidade das religiões se mede pela fraternidade

há 6 minutos
4 min de leitura

Última etapa de Leão XIV na França. Diante de representantes de diferentes confissões, o apelo inspirado no encontro de Assis de 1986: “Agir juntos a serviço da paz”. Invocar Deus para legitimar a violência é uma “profanação”. “As religiões são guardiãs da vida”. Ontem, em Lourdes, o encontro com sete vítimas de abusos cometidos por membros do clero.

Cerca de 35 mil pessoas presentes no total, segundo as autoridades, na região e dentro da catedral   (@Vatican Media)
Cerca de 35 mil pessoas presentes no total, segundo as autoridades, na região e dentro da catedral   (@Vatican Media)

Na manhã desta segunda-feira, o papa Leão XIV partiu de Lourdes rumo a Metz, última etapa de sua viagem apostólica à França, realizada de 25 a 28 de setembro de 2026. Na antiga cidade do nordeste do país, capital do departamento de Mosela, a 55 km da fronteira com Luxemburgo, o papa foi recebido pelas autoridades locais e por um grupo de crianças, que o homenagearam com cantos, presentes e abraços.


Em seguida, Prevost dirigiu-se ao Centro de Congressos Robert Schuman — político francês considerado um dos pais fundadores da União Europeia — para participar de um encontro inter-religioso com representantes de diferentes tradições religiosas.


Apelo de Metz pela unidade religiosa

Antes do discurso do papa, foi lido o Apelo de Metz dos responsáveis pelo culto religioso na França. O documento dá continuidade ao espírito do apelo de Assis, lançado há 40 anos por São João Paulo II, em 27 de outubro de 1986, com a participação de líderes das religiões mundiais, embora o mundo tenha “mudado profundamente”.


O texto é assinado pelo CRCF, organismo criado em 2010 que reúne representantes das comunidades budistas, das Igrejas cristãs, do Islã e do judaísmo.


Os signatários denunciam a expansão das guerras, das desigualdades e dos desequilíbrios: “Essas transformações nos preocupam, mas nos comprometem ainda mais”.

“Nossas tradições religiosas nos chamam a ser sentinelas, atentas à dignidade de cada pessoa e ao cuidado com o outro. Elas nos convidam não a nos resignarmos à violência, à injustiça ou à indiferença, mas a agir juntos a serviço da paz, da fraternidade e da reconciliação”.

Na presença de Leão XIV, os representantes — entre eles o cardeal Jean-Marc Avelin, presidente da Conferência Episcopal da França, e Haïm Korsia, rabino-chefe da França — assumiram “três compromissos concretos”.


O primeiro: “Prosseguir assiduamente um diálogo exigente”. O segundo: “Formar nossas jovens gerações para o conhecimento mútuo”. E, por fim, o terceiro: “Permanecer unidos, também nas adversidades, para trabalhar pela promoção da justiça e da paz”.


“As religiões são guardiãs da vida”

Ao tomar a palavra, o pontífice afirmou que a “profunda alegria” e o “vivo senso de responsabilidade espiritual” acompanham sua presença em Metz, “cidade de fronteiras e de passagens”.


“Dialogar não diminui nossa identidade, mas a expressa com simplicidade e verdade, abrindo-se à diversidade do outro”, afirmou. Na ocasião, Leão XIV recordou as palavras de seus predecessores sobre o diálogo entre as religiões: o papa Francisco, que invocava a “amizade” e a “paz”, e São João Paulo II, para quem o diálogo era uma “exigência intrínseca à própria natureza do ser humano”.

Prevost também mencionou o filósofo francês Paul Ricœur (1913-2005). Para ele, o diálogo “é o caminho pelo qual reconhecemos a alteridade como uma promessa, e não como uma ameaça; é uma arte do encontro de que nosso mundo tem grande necessidade, nos antípodas da agressividade e da violência”.

O papa recordou ainda Robert Schuman (1886-1963), que dá nome ao centro de congressos: “Soube transformar antigas linhas de fratura em pontes de esperança para toda a Europa, tornando-se um verdadeiro embaixador da unidade na diversidade”.


A fé não pode justificar a violência

“Invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão constitui uma profanação desse nome”, afirmou o papa. “Nada do que fere a dignidade humana pode reivindicar uma autêntica inspiração divina. O discurso religioso deve exortar constantemente ao desarmamento dos corações e das palavras. Isso implica a responsabilidade direta de cada um de nós, enquanto guardiões de nossas respectivas tradições”.

Em Metz, o papa ressaltou que a “fecundidade das tradições religiosas” deve ser medida pelo serviço à “paz” e à “fraternidade”, assim como pela “capacidade de proteger, acompanhar e servir a vida”.


“As religiões são guardiãs da vida: afirmam seu valor sagrado”, disse nesta manhã. “Sua fecundidade se manifesta na presença amorosa ao lado das pessoas mais vulneráveis e frágeis”. Prevost explicou que “servir a vida” significa dedicar-lhe “cuidados, presença e ternura, sobretudo nos momentos de provação, até o fim”. “A nós, que estamos abertos à transcendência, cabe a missão de oferecer pontos de referência sólidos, especialmente aos jovens, para construir uma comunhão que respeite e valorize a dignidade de cada pessoa humana”.


Papa encontra vítimas de abusos do clero

A Sala de Imprensa da Santa Sé informou que, na tarde de ontem, Leão XIV encontrou-se na Casa Episcopal de Lourdes, pouco depois das 17h30, com sete pessoas — quatro homens e três mulheres — vítimas de abusos cometidos por membros do clero e da Igreja francesa.

O gesto teve um significado importante e forte valor simbólico, considerando que, na França, os abusos cometidos por clérigos e religiosos constituem um fenômeno amplo e estrutural.


As sete vítimas foram acompanhadas por dom Gérard Le Stang, bispo de Amiens e presidente do Conselho para a Prevenção e o Combate à Pedofilia, vinculado à Conferência Episcopal da França.


Segundo as informações divulgadas, o papa teria recebido cada uma delas individualmente e em particular, “dando ouvidos às suas histórias, à dor e ao sofrimento vividos — por vezes, infelizmente, com a cumplicidade ou o silêncio daqueles que poderiam tê-las ajudado — e às suas propostas para que isso não volte a acontecer”.


Ao final do encontro, agradeceu pelo doloroso testemunho e reafirmou seu compromisso para que “o mal vivido não se repita com outras pessoas”. A Sala de Imprensa da Santa Sé informou que o pontífice expressou sua “proximidade a elas e, por meio delas, a todos aqueles que sofreram e ainda sofrem pelas feridas dos abusos recebidos”.


Por Agência Fides - Tradução e adaptação redação Mundo e Missão

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