top of page

Pedro: Amo o pouco

“O sorriso estampado no rosto das pessoas a cada bom dia e a gratidão simplesmente pela nossa presença foi contagiante e questionadora. Essa realidade me fez me dar conta de que o deficiente nesse meio era eu”. A experiência de Pedro num mundo de belezas.

Há pessoas que com suas vidas e escolhas contam histórias. É o caso de Pedro Perna, brasileiro, naturalizado canadense, nascido em Brasília. Tive a alegria de conhecê-lo em Quebec, Canadá, durante a viagem de Papa Francisco àquele país. Pedro foi para nós um suporte indispensável para podermos contar a todos sobre a viagem de Francisco.

Fotos: Arquivo pessoal - reprodução Vatican Media

Pedro é um missionário em formação no seio da Sociedade das Missões Estrangeiras de Québec e agora está na segunda etapa de sua formação dentro da SME (Missionary formation center), experiência que ele está vivendo no Quênia.

Silvonei José, jornalista do Vatican News pediu a ele que nos contasse um pouco desse momento de sua vida e a resposta foi imediata... ‘certamente’. O que vocês irão ler a seguir, é um texto que brotou do seu coração. Um agradecimento por repartir conosco e com os leitores esse momento de sua vida.


Pedro Perna - Quênia

"Hakuna matata" me respondeu Roselyn sorrindo, com essa frase em uma das duas línguas nacionais do Quênia, o Kiswahili, quando eu pedi desculpa pelo atraso. Essa frase - sem problema - ficou célebre na canção do filme "O Rei Leão" e resume bem o “ethos” que une as mais de 100 tribos que vivem no território do Quênia, este país tão rico de diversidade no leste africano. Fronteiriço com a Tanzânia ao sul, com Uganda ao oeste, Etiópia ao norte, Somália ao nordeste e banhado pelo oceano Índico, o Quênia tem sido mais que uma aula de antropologia, geopolítica ou sociologia. Acredito que nos 9 meses que estou vivendo aqui algo indizível aconteceu na minha alma e vou tentar explicar um pouco.


Roselyn é lavadeira e trabalha com os irmãos missionários da caridade de Madre Teresa de Calcutá na segunda maior favela do continente africano, Kibera, que em dimensão só é menor que Soweto na África do Sul. Ela me explicava, numa mistura de kiswahili, inglês e kiluo, sua língua materna, o orgulho que ela tem de ser da mesma etnia que Barack Obama e Lupita Ndongo. Juntamente com Ruth, outra trabalhadora da mesma casa, e com apoio esporádico de alguns voluntários que ajudam na casa New Life, todos os dias manualmente se lavam dezenas de quilos de roupas de cama (lençóis, cobertas, cobertores espessos e fronhas) e mais as roupas que são trocadas em geral duas vezes ao dia, dos 36 pacientes residentes, homens que vivem com os desafios de uma condição física ou mental limitante que os coloca no rol dos que Madre Teresa chamava "os mais pobres entre os pobres". Eu busquei ajudar nessa e em outras atividades da casa nas vezes que estive lá. Nesse processo de voluntariado missionário, a ilusão de que essas pessoas são menos não teve tempo de se instalar na minha mente.


O sorriso estampado no rosto das pessoas a cada bom dia e a gratidão simplesmente pela nossa presença foi contagiante e questionadora. Essa realidade me fez me dar conta de que o deficiente nesse meio era eu. Deficiente na minha capacidade de me comunicar nas várias línguas que pacientes, trabalhadores e voluntários falam, mesmo que a maioria fale também inglês, como eu. Deficiente de encontrar o outro sem ficar preso nas categorias ou papéis sociais que fui ensinado a observar ao longo da vida. Deficiente por estar preso nas minhas idéias e tentativas de racionalizar tudo ao meu redor em vez de me lançar na aventura de simplesmente estar junto. Deficiente na minha capacidade de entender de onde vem tanta alegria.

Eu percebi que tinha deficiências e que aos poucos o Cristo pregado na cruz, que disse a Madre Teresa no início do chamado dentro do chamado "Tenho sede", veio até mim e me olhou nos olhos, e quis falar comigo. Fez isso por meio de um dos pacientes que não é verbal, não se locomove e tem todos os membros atrofiados desde o nascimento, com a exceção do braço direito. Esse Cristo me olhou no fundo da alma e sem nenhuma palavra me disse: "Que queres que eu te faça?" E eu sem saber o que pedir ou dizer, fui percebendo que a cada vez que o alimentava, estava sendo curado das minhas atrofias e da cegueira que me impediam de ver que esse meu pouco era suficiente para me oferecer vida em abundância e que como dizemos popularmente no Brasil " o pouco com Deus é muito". O que parecia pouco se revelou muito, se tornou tudo que eu precisava pra ser um novo homem. Também lembrei de uma frase célebre de um grande homem de Igreja que aconselhou certa vez um sacerdote em busca de ser renovado no cansaço de um ministério que o estava esgotando, propondo a ele: "deixe os pobres te curarem."



Nas escolas onde pude ir, vi a inocência das crianças que ao me verem gritavam "mzungu! mzungu!",* que sem receio se aproximavam e tocavam meu braço, se admiravam e perguntavam: "irmão, por que seu braço é mais claro em cima e mais escuro embaixo e o nosso braço é de uma cor só?" Ou se impressionaram quando me viam ajudar a cozinhar num enorme caldeirão, sobre o fogo de lenha, o ugali (um tipo de pirão de farinha de milho e água) típico da culinária local, base da alimentação praticamente diária das diferentes populações do Quênia e de outros países, particularmente do Leste do continente. Vai ficar na minha memória o banho de carinho que as crianças deram tocando os cabelos de um visitante canadense tipicamente caucasiano. A maioria via pela primeira vez uma pessoa com cabelos claros e lisos.

Fora de Nairóbi, na região da fronteira com a Tanzânia, pude encontrar uma comunidade vibrante, num contexto surpreendentemente multicultural, mas predominantemente Maasai, essa tribo emblemática cujos símbolos estão presentes em diversos elementos da identidade queniana, como o escudo que figura na bandeira do país. A Paróquia São Paulo Apóstolo de Namanga foi um lugar de descoberta privilegiada nesse percurso missionário. Com uma superfície que se estende por vários quilômetros quadrados, numa região que me fez muito lembrar o semiárido do Nordeste do Brasil, inclusive pela seca que os castigou nos últimos 4 anos e meio, a paróquia tem capelas que são a horas de distância uma das outras, e conta com uma equipe de três sacerdotes cheios de ardor missionário para atender todo o povo dessa região. Tive a graça de viver a vigília Pascal na pequena capela do vilarejo chamado Mailwa, toda celebrada em kiswahili por Padre Bosco, sacerdote assuncionista congolês, com tradução em língua maasai feita pelo catequista local. Acho difícil descrever tudo que vivi, mas vi duas jovens Maasai que foram batizadas e outros 3 que receberam o corpo e o sangue de Cristo pela primeira vez. Vi a beleza de uma comunidade que está amadurecendo na fé. Nessa capela simples, como deve ter sido o lugar da Natividade, pude testemunhar e compartilhar a fé com essa tribo de pastores, que vivendo plenamente as suas raízes, cantavam louvores a Deus na sua língua mãe. Eu vi uma pequena comunidade sendo elevada e transfigurada pelo anúncio da Boa Nova da Ressurreição, crescendo na direção de uma união profunda e equilibrada das identidades Maasai e cristã.



Na missão, encontrei pessoas maravilhosas, apaixonadas por Jesus Cristo e por sua Igreja. Certa vez, durante a pausa para o lanche em um dia de atividade missionária, pude contar que ao redor da mesa estavam representadas cinco comunidades religiosas missionárias diferentes, treze missionários de dez países, sete homens e seis mulheres, e mais de vinte línguas que esses missionários e missionárias falavam em seus países de origem ou que aprenderam para a missão. Todos unidos em um só Espírito, que nos animava e enviava para sermos discípulos-missionários.


Essa ideia de missão, eu tive contato na teoria que eu aprendi na leitura da palavra de Deus, dos documentos da Igreja e dos ensinamentos que recebi sobre ser missionário. Mas essa experiência que estou vivendo no Quênia me fez crescer nesse caminho, saindo da minha mente e indo ao meu coração. Esse é o meu Emaús interior, e agora meu coração arde de desejo de ser um com cada ser humano que eu encontrar. Espero poder descobrir e mostrar a beleza de sermos filhas e filhos amados, perdoados e chamados a viver em abundância, unidos num só amor. E tudo começou aprendendo a amar o pouco. ____________________________________________________________ (*) mzungu é o nome em Kiswahili que se dá para os estrangeiros, por vezes traduzido como "homem branco". Na origem o nome quer dizer "aquele que vive dentro de cerca" porque originalmente os povos da região não cercavam suas propriedades, que em geral eram coletivas, e os primeiros a colocar cercas foram os primeiros estrangeiros, os colonizadores que eram homens brancos. O nome passou a ser utilizado para todos os que vêm de fora. Hoje praticamente não há mais propriedades coletivas.


Reprodução Vatican News



Comments


bottom of page