Uma igreja entre os arrozais do Camboja

Uma grande igreja abandonada sob bombardeios. Permaneceu vazia e em estado deplorável durante anos no meio de arrozais


foto: Arquivo PIME

Um lugar físico e ao mesmo tempo um símbolo da comunidade cristã do Camboja, que renasce sem esquecer suas feridas. Assim é Ta Om, a nova fronteira no coração do Camboja onde vive o padre Franco Legnani, missionário do PIME. Italiano, 63 anos, o padre Franco - após alguns anos em serviço na Itália - retornou ao país onde é missionário desde 1994. Hoje atua na prefeitura apostólica de Battambang, no norte do Camboja:


"Estou sediado em Siem Reap a cidade ao norte do grande lago Tonle Sap, em uma equipe pastoral com dois jesuítas. Mas eu, em particular, cuido das comunidades ao redor de Ta Om, a 75 quilômetros da cidade, no meio de arrozais. Uma área onde realmente não há mais nada… Afora a igreja ‘redescoberta’ há cerca de vinte anos. Sua existência era conhecida, mas não havia estrada para alcançá-la".


Uma cidade aniquilada


A igreja de Ta Om foi construída por volta de 1910. “Deve ter sido a sede de uma comunidade cristã muito grande - comenta Franco -. Basta ver o tamanho do edifício e os dados enviados pelos membros das Missions Etrangères de Paris que, em 1938 contabilizavam 700 cristãos. Depois, nos anos 1970 foi bombardeada por milícias pró-americanas, porque se tratava de uma comunidade de vietnamitas, pressumidamente apoiadora das milícias de Hanói, que atravessavam o Camboja. Precisamente por isso, na restauração da igreja queríamos manter uma parede com os furos das metralhadoras. Um símbolo do sofrimento do nosso povo”.


“Da comunidade cristã que vivia em Ta Om alguns conseguiram fugir e voltar ao Vietnã, subindo o rio Mekong, em uma jornada que deve ter sido épica. Outros certamente foram mortos. De fato, não resta ninguém dessa comunidade cristã hoje. Existem quatro aldeias na área, mas todas são habitadas por cambojanos”, afirma o padre Franco.


O recomeço


“Mesmo antes de eu chegar - explica o padre - a missão de Siem Reap começou a animar Ta Om. Em 1994, o padre Toni Vendramin (falecido em julho de 2021) esperava-me sozinho em Phnom Penh. Ele foi a primeiro missionário do PIME destinado a essa missão. Fui o segundo. No início, atuávamos principalmente na Nova Humanidade, a ONG ligada ao Instituto: havia uma grande necessidade de reconstruir o Camboja: abrir canais, desenvolver a agricultura, ajudar na reabertura das escolas. Então comecei a ouvir um grito cada vez mais claro: os fragmentos de comunidades cristãs espalhadas durante os anos do Khmer Vermelho* precisavam de alguém que estivesse com elas, que compartilhasse a alegria de estar juntos novamente, reconhecendo que - depois de tantas lágrimas - Deus não as abandonou. Assim, a partir de 1997, com o padre Toni, dividimos as tarefas e me dediquei em tempo integral à pastoral mista (entre cambojanos e vietnamitas)”. Comecei a vir regularmente de moto a Ta Om, todas as semanas: fico com as crianças e os idosos que estão muito necessitados, porque os jovens procuram trabalho na Tailândia. Abrimos um Jardim da Infância, o único na área; para crianças mais velhas oferecemos iniciativas de educação informal. Nos últimos dois anos, no entanto, o Covid-19 nos obrigou a reduzir bastante todas essas atividades. No Camboja o confinamento é rígido e a emergência continua”.


Inimigos recíprocos


Mesmo depois de tantos anos, feridas permanecem abertas no Camboja. “Para os cambojanos, os vietnamitas ainda são inimigos - explica o missionário -. Até entre católicos, que também são apenas 0,15% da população local. Em Kampong Chhnang, a divisão entre cambojanos e vietnamitas foi sempre tangível: até as crianças mal brincavam juntas. É por isso que eu queria um conselho pastoral misto. Eu dizia: ‘O vietnamita sorri como você, chora como você, ambos foram batizados: Deus perdoa o vietnamita como o cambojano’. Esse ódio é alimentado pela propaganda. Mas entre eles demos pelo menos alguns passos à frente. A razão de estamos em Kampong Chhnang é a do amor de Cristo. Um amor que conhecemos e que queremos partilhar. Precisamente como o de São Pedro: ‘Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, dou-te: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda’.”


Na bagagem, dois sonhos


Há alguns meses o padre Franco regressou aos seus arrozais, trazendo consigo dois sonhos: “O mais imediato é poder mudar-me definitivamente para Ta Om, porque é necessária uma presença permanente entre estas pessoas. Mas também tenho outro sonho na gaveta: chama-se Oddar Meanchey, a província mais ao norte do Camboja, na fronteira com a Tailândia. É uma zona muito bonita. Já a visitei várias vezes; é também aquela onde ainda há mais minas explosivas... Nunca houve uma presença da Igreja cambojana ali. Significaria começar do zero.” Para descobrir um tesouro precioso também lá, nos confins dos arrozais.


por Giorgio Bernardelli, Mondo e Missione