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Se Jesus fala lakota

Entre as vastas pradarias que cercam a reserva de Standing Rock, no Dakota do Sul, a epopeia dos nativos Sioux ainda ecoa nos nomes dos lugares que foram palco de batalhas icônicas contra o “homem branco” e nos sítios naturais aos quais o povo Lakota atribui, até hoje, profundo valor espiritual — das Black Hills ao monte Bear Butte.

Reprodução: Mondo e Missione
Reprodução: Mondo e Missione

Foi nesse cenário que o padre Andrea Benso, sacerdote de 56 anos da diocese de Acqui, viveu por três anos como missionário fidei donum entre os nativos americanos. «Uma experiência atípica», admite ele, recordando que «é preciso voltar à segunda metade do século XIX para encontrar missionários que se aventuraram por essas terras». Naquela época, nas Grandes Planícies ainda pastavam livres os bisões, enquanto as tribos deslocavam seus tipis para a caça ou para as cerimônias religiosas. Hoje, os descendentes de figuras lendárias como Touro Sentado e Nuvem Vermelha deixaram, em muitos casos, suas terras ancestrais rumo às cidades — onde, em troca de maiores oportunidades, perderam parte importante de seu patrimônio cultural e identitário — ou vivem nas reservas.


Um encontro que transforma

Foi nesse contexto que o sacerdote atuou. De 2014 a 2017, viveu entre Standing Rock e a vizinha reserva de Cheyenne River, na diocese de Rapid City. «Fui eu quem pediu para viver essa experiência — conta — porque desejava conhecer mais de perto a espiritualidade e a antropologia de um povo conhecido sobretudo pelo cinema e pela cultura popular, mas que hoje enfrenta desafios graves, como a perda da identidade, as dependências e a violência contra as mulheres».

Um encontro intenso e fecundo, que continua a influenciar seu olhar e sua fé. «Estou convencido de que um catolicismo Lakota pode enriquecer muito a Igreja — afirma. Trata-se daquele terreno ainda misterioso, mas fértil, que chamamos de teologia indígena».

A história de Alce Negro

Não por acaso, dom Andrea participa desde o início do processo de beatificação de Alce Negro (Black Elk), iniciado em 2017 pela diocese de Rapid City e depois encaminhado ao Dicastério para as Causas dos Santos. Alce Negro foi um dos chefes Sioux mais conhecidos, um “medicine man” cujo carisma marcou gerações, especialmente após o livro Alce Negro fala, de John Neihardt, publicado em 1932.


Obra fascinante, mas incompleta: omitira um aspecto essencial da vida de Black Elk — sua conversão ao catolicismo e seus vinte anos como catequista e missionário entre seu povo. Somente em 1993, com o livro do jesuíta e antropólogo Michael Steltenkamp, Alce Negro, o santo dos Oglala, veio à tona, graças ao testemunho de sua filha Lucy, a história do Alce Negro católico. Uma história significativa por sua capacidade de não renegar os saberes ancestrais — abandonando apenas o ritual de cura do yuwipi —, mas de superá-los e enriquecê-los à luz da fé em Jesus.


Evangelização e inculturação

A trajetória cristã de Alce Negro insere-se no processo mais amplo de evangelização dos Sioux, divididos entre Dakota, Nakota e Lakota. Estes últimos tornaram-se célebres tanto por sua resistência — como na batalha de Little Bighorn — quanto por participarem, entre 1887 e 1889, do espetáculo itinerante de Buffalo Bill na Europa. Um detalhe revelador: para integrar o show, era preciso provar estar “civilizado” — e, portanto, batizado. Era o período da assimilação forçada, em que culturas diferentes eram vistas como inferiores.


Por décadas, também a evangelização se inseriu nesse horizonte. Após a experiência pioneira do jesuíta belga Jean-Pierre De Smet, que no século XIX viveu como nômade entre os Sioux conquistando sua confiança, prevaleceu uma abordagem que via o cerimonial indígena como paganismo a ser erradicado. A lógica era semelhante à das boarding schools, internatos criados para “civilizar” crianças nativas, afastando-as de suas famílias.


Ainda assim, houve tentativas iniciais de inculturação: missionários aprenderam a língua indígena e fundaram confrarias inspiradas nas tradições locais. A partir dos anos 1970, uma segunda onda de inculturação ganhou força, no contexto do movimento pelos direitos civis e do despertar do orgulho cultural indígena.


A diocese de Rapid City criou um programa de formação de diáconos Lakota. Um deles, Ben Black Bear, traduziu os Evangelhos para sua língua; outros trabalharam na inculturação da liturgia. Em 1999, um documento elaborado por um grupo diocesano com líderes espirituais Lakota apresentou orientações para a celebração da Missa: introdução da azilya (incenso tradicional feito de sálvia) no rito penitencial, uso de tambores e cantos em lakota, além das tradicionais colchas com a estrela da manhã ao centro, hoje associada a Cristo.


Uma presença humilde

Hoje, diante dos abusos do passado, muitos jovens reivindicam as origens pré-contato e, às vezes, rejeitam a fé cristã. O que significa ser missionário nesse contexto? «É um ministério de presença. Não há uma ação estruturada. As pessoas valorizavam minhas visitas às famílias e minha participação nos eventos comunitários, dos powwow às vigílias fúnebres e aos jogos de basquete nas escolas. A chave é estar no meio do povo com respeito e humildade».


Abertos também ao que uma fé Sioux pode oferecer à Igreja inteira. No rastro de Alce Negro, que como catequista levou 400 nativos ao batismo. «Um missionário que deixou uma marca também na minha vida», conclui dom Andrea.


Por Chiara Zappa - tradução e Adaptação Redação Mundo e Missão

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